No capítulo anterior, pequenos acontecimentos começam a abalar a vida de Alzira, enquanto suas próprias mentiras passam a se voltar contra ela e sua imagem começa a ruir diante das pessoas. O encontro com Miguel intensifica o desconforto, e tudo culmina quando sua conta bancária é bloqueada, fazendo com que, pela primeira vez, ela sinta medo real e perceba que está perdendo o controle da própria vida.
Tudo piorou depois do encontro com Miguel na feira de quarta-feira.
Capítulo 4 – O Erro
Alzira enxergou ali a oportunidade perfeita. A feira era o cenário ideal: gente demais, ouvidos atentos, conversas que se espalhavam como fogo.
Em tom de falsa preocupação, comentou que talvez fosse prudente “tomar cuidado” com certas pessoas que surgiam discretamente e despertavam curiosidade demais. Não citou nomes de imediato — nunca fazia isso — mas deixou pistas suficientes.
— Eu só acho estranho… — disse, ajeitando o cabelo seboso. — Homem misterioso demais costuma esconder alguma coisa. E eu ouvi umas coisas a respeito dele…
Fez uma pausa calculada.
— Ah, não posso afirmar… mas não me surpreenderia se tivesse assunto sério aí.
Dessa vez, porém, o golpe voltou contra ela.
— Engraçado… — interrompeu uma voz firme.
Era Sandrinha Valeriana, professora da cidade, que observava de braços cruzados.
— Porque tudo que eu ouço nessa cidade… sempre começa em você.
O silêncio caiu pesado ao redor.
Alzira congelou por um segundo. Depois, veio a indignação.
— Você está me acusando?
— Estou dizendo o que muita gente pensa… mas nunca teve coragem de falar.
Os olhares ao redor mudaram. Não eram mais curiosos — eram julgadores.
Mas o que Alzira não sabia…
é que, antes mesmo daquele momento, suas palavras já tinham chegado onde não deveriam.
Miguel ficou sabendo.
Não por acaso.
Mas através de uma de suas próprias clientes.
A Sra. Eli.
Moradora antiga da região próxima à quadra de esportes do pequeno bairro Pedregado, conhecida por ser discreta… mas observadora.
Ela havia procurado Miguel dias antes, visivelmente desconfortável.
— Seu Miguel… eu não gosto de me meter na vida dos outros… mas achei que o senhor deveria saber.
Miguel ouviu em silêncio.
— Aquela Alzira… ela andou falando do senhor. Não foi pouca coisa não. Falou mal… criticou… e ainda disse pra mim tomar cuidado com o seu serviço.
Ela hesitou.
— Disse que não confiava… que tinha coisa estranha.
Miguel não demonstrou reação imediata.
Apenas assentiu.
— Entendi.
Mas naquele momento… ele entendeu mais do que parecia.
Não era só fofoca.
Era interferência.
Era tentativa de manchar o que não pertencia a ela.
E talvez…
o erro tivesse sido maior do que Alzira imaginava.
Na feira, tudo já estava em movimento.
E Alzira não fazia ideia.
Ao sair da banca de verduras, tentando manter a postura, viu Miguel logo ao lado, conversando calmamente com outro feirante.
Ele não parecia surpreso.
Parecia… esperando.
— Você está bem, queridooo? — ela disse, seca.
— Sim.
Sem aviso, ela se aproximou e o abraçou — um gesto forçado, quase teatral.
Foi então que, no ouvido dela, em um tom baixo e controlado, ele disse:
— A senhora continua escolhendo o caminho errado.
A frase caiu como uma pedra no fundo de um poço.
— Eu não admito esse tipo de ameaça.
Miguel se afastou apenas o suficiente para encará-la. Não havia agressividade. Só firmeza.
— A senhora devia ter parado nas fo-fo-cas… — disse ele, pausadamente. — Devia ter parado nas mentiras pequenas. Devia ter parado… antes de mexer com o que não entende.
Alzira ergueu o queixo, tentando recuperar o controle.
— E quem é você para me dizer alguma coisa?
Miguel demorou alguns segundos.
— Alguém que sabe mais sobre a senhora… e sobre a sua família podre… do que a senhora imagina.
O estômago dela afundou.
Sem responder, virou as costas e saiu apressada, apertando a bolsa contra o corpo como se aquilo ainda pudesse protegê-la de algo… que ela não conseguia nomear.
Ao chegar à loja, tentou agir normalmente.
Sentou-se no banquinho de sempre, pegou o celular… e então viu.
Uma notificação.
Depois outra.
E mais outra.
Códigos. Códigos de verificação chegando sem parar.
SMS. WhatsApp. E-mail do Gmail e Outlook
“Seu código de acesso é: ******”
“Não compartilhe este código.”
“Solicitação de login detectada.”
Ela franziu a testa.
— Mas eu não pedi nada…
O coração começou a acelerar.
Tentou ignorar.
Bebeu um copo d’água com as mãos trêmulas.
Nada fazia sentido.
Tudo parecia… fora do lugar.
Mais tarde, já em casa, por volta das 22h, tentou seguir a rotina.
Tomou banho. Vestiu a camisola de Sra de idade. Apagou as luzes da sala. Pegou o controle.
Queria apenas assistir algo na Netflix e esquecer aquele dia.
Mas o celular vibrou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Ela pegou.
“Seu código de uso único para acesso à Netflix na TV é: ******”
Alzira travou, ela sabia que alguém tinha descoberto a senha de sua Netflix. A senha tinha partes de seu próprio nome.
— Eu não estou entrando na TV…
Outro aviso.
“Nova tentativa de login detectada.”
Outro código.
E outro.
E outro.
Como se alguém estivesse insistindo.
Como se alguém estivesse… tentando entrar.
Ou já estivesse dentro.
A respiração dela ficou irregular.
Foi então que uma nova notificação apareceu.
Diferente das outras.
Mais longa.
Mais fria.
“Codigo para abertura de conta iniciada com sucesso.”
Ela franziu o cenho.
Banco Sadander.
Um banco espanhol com operação válida em território nacional.
Outro alerta em seguida:
“Confirme seus dados para prosseguir com a ativação da conta.”
O iPhone quase escorregou de sua mão.
— Eu… não fiz isso…
A garganta secou.
O silêncio da casa parecia mais pesado do que nunca.
Cada som mínimo parecia alto demais.
Cada vibração do celular… um choque.
Alzira sentou-se lentamente na beira da cama.
O mundo dela, até então tão controlado, começava a escapar por entre os dedos.
E pela primeira vez…
Ela não tinha a menor ideia de como recuperar o controle.
“A máscara não cai de uma vez.
Ela racha primeiro.”
Miguel tinha paciência e planejava algo grande, a queda e Alzira seria algo épico daqueles que você só vê em filme.
Miguel é uma pessoa com muitos contatos...
Em breve capitulo 5
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O Eco do Abismo

