Eu Sempre Estive Aqui: Prólogo

Eu Sempre Estive Aqui: Prólogo


Antes da primeira mensagem… antes do primeiro “oi”… antes mesmo de Anna perceber que alguém novo havia entrado na sua vida… tudo já tinha começado.

Era uma noite comum quando ela entrou naquele grupo de WhatsApp. O nome chamava atenção de qualquer fã: dedicado à série You. Teorias, comentários, surtos sobre personagens, debates sobre obsessão e limites — tudo aquilo fazia Anna se sentir parte de algo. Ela gostava da sensação de pertencer, mesmo que fosse entre desconhecidos.

As mensagens subiam rápido. Centenas por dia. Gente entrando e saindo o tempo todo. Em meio àquela multidão digital, qualquer pessoa poderia passar despercebida.

Mas Anna não passou.

No começo, eram apenas interações simples. Ela respondia alguém aqui, reagia ali, soltava uma opinião mais elaborada sobre um episódio. Nada fora do normal. Nada que chamasse atenção… pelo menos, não para a maioria.

Mas alguém notou.

Enquanto todos conversavam, riam e esqueciam rapidamente o que havia sido dito minutos antes, ele fazia o contrário. Ele observava. Salvava. Revisitava.

Cada mensagem de Anna não era só uma mensagem.

Era um detalhe.

Ele começou a reconhecer padrões. Os horários em que ela ficava online. O jeito como escrevia. As palavras que mais usava. O tipo de humor. As inseguranças escondidas em frases aparentemente normais. Pequenos comentários sobre o dia a dia que, para qualquer outro, seriam irrelevantes… mas para ele, eram peças de um quebra-cabeça.

E ele gostava de montar quebra-cabeças.

Dias viraram semanas.

Semanas viraram meses.

Anna seguiu sua vida normalmente. O grupo já não era novidade, mas ainda era um lugar onde ela voltava de vez em quando, principalmente quando queria distrair a mente. Ela não fazia ideia de que, mesmo quando não estava lá… alguém ainda pensava nela.

Alguém que já sabia mais sobre ela do que muitos amigos próximos.

Ele descobriu suas redes sociais sem que ela percebesse. Não foi difícil. Uma foto de perfil, um nome, um detalhe aqui e ali — o suficiente para ligar tudo. A partir daí, Anna deixou de ser apenas “Anna do grupo”.

Ela se tornou um universo inteiro.

Fotos antigas, legendas esquecidas, stories, curtidas, comentários… tudo era analisado. Ele observava quem ela seguia, quem comentava nas fotos, quais eram seus lugares favoritos, suas músicas, seus gostos. Até mesmo o que ela não postava dizia algo.

E ele prestava atenção em tudo.

Anna nunca desconfiou.

Para ela, sua vida continuava sendo apenas… sua vida.

Até que, um dia, ele decidiu aparecer.

Não no grupo.

Mas diretamente para ela.

A mensagem foi simples. Natural. Como qualquer outra conversa que começa do nada. Ele parecia alguém comum — talvez até interessante. Alguém que também gostava da mesma série, que entendia suas referências, que ria das mesmas coisas.

Era fácil conversar com ele.

Assustadoramente fácil.

Anna sentiu que havia encontrado alguém com quem podia se conectar rápido. Alguém que parecia “bater” com ela de um jeito raro. As respostas vinham no momento certo. As opiniões combinavam. Os interesses coincidiam.

Enquanto Anna acreditava que estava conhecendo alguém… ele já tinha estudado cada detalhe necessário para ser exatamente aquilo que ela gostaria de encontrar.

Ele sabia o que dizer.

Sabia o que evitar.

Sabia como se aproximar.

Os dias passaram, e a presença dele se tornou constante. Mensagens diárias. Conversas longas. Risadas compartilhadas. Pequenas confissões.

Anna começou a sentir que o conhecia.

Enquanto ela acreditava que tudo estava começando ali, naquele presente confortável e familiar…

Para ele, aquilo já era o resultado de meses de observação.

Meses em silêncio.

Meses construindo, aos poucos, um caminho até ela.

E então veio o momento.

A pequena quebra na ilusão.

Uma frase fora do lugar.

Um detalhe que ele não deveria saber.

Algo simples… mas impossível de ignorar.

Foi quando Anna percebeu.

Ou melhor…

Foi quando ela começou a perceber.

Que o “novo amigo” que tinha acabado de entrar na sua vida…

Não era novo.

Ele já estava ali há muito tempo.

Observando.

Aprendendo.

Esperando.

E o mais perturbador de tudo…

É que, mesmo depois de perceber, Anna ainda não sabia o quanto ele realmente sabia.

Porque, para ele, aquela história nunca foi sobre conhecer alguém.

Era sobre encontrar alguém.

E ele tinha certeza…

De que tinha encontrado Anna muito antes dela sequer imaginar que estava sendo vista.

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