No capítulo anterior: Alzira fecha a loja em pleno sábado e se isola em casa, tomada pelo medo das consequências de tudo o que fez. Cercada por contas e possíveis prejuízos, ela percebe que as mentiras, manipulações e pessoas que tentou prejudicar começam a voltar contra ela. Sem arrependimento, sente apenas o peso do que está por vir, enquanto a cidade já comenta seu sumiço. Ao final, Alzira tem a certeza de que uma grande notícia mudará tudo em breve.
Capítulo 11 – O Silêncio do Feriado
A segunda-feira amanheceu diferente em Vale Seco.
Era feriado regional.
A cidade, que já costumava acordar devagar, parecia ainda mais silenciosa naquela manhã. As ruas estavam vazias, as lojas com portas abaixadas e o som do movimento cotidiano havia sido substituído por um silêncio estranho, quase incômodo.
Mas, para Alzira Monteiro, aquilo significava algo ainda maior.
Além do feriado, aquele seria, para ela, um feriado prolongado inesperado, emendando dias em que sua loja continuaria fechada — algo que não acontecia havia muitos anos.
Talvez o período mais longo sem abrir desde a última década.
E isso, para alguém que sempre fez questão de manter as portas abertas, era quase impensável.
Pela segunda vez consecutiva, sua loja não abriria.
A porta de aço permaneceu fechada.
Nenhuma luz acesa.
Nenhum sinal de atividade.
Os poucos moradores que passaram pela rua perceberam.
— De novo fechada?
— Isso nunca aconteceu antes…
— Tem coisa séria aí.
Mesmo em um dia de feriado, a ausência da loja aberta era assunto.
Porque Alzira sempre trabalhou.
Sempre.
Mesmo quando não queria.
Mesmo quando estava doente.
Mesmo quando a cidade parava.
Sua loja era uma extensão dela.
E agora…
estava fechada.
Sentada sozinha em casa, no sofá da sala, Alzira encarava a televisão ligada sem realmente assistir.
O rosto estava abatido.
Os olhos inchados.
O corpo parecia pesado.
O silêncio da cidade só aumentava o barulho dentro da própria cabeça.
Ela não sabia qual seria o próximo passo de Miguel.
E isso a consumia.
A incerteza era pior do que qualquer certeza.
Não saber de onde viria o próximo golpe.
Não saber o que ainda estava por vir.
Não saber quem mais já sabia de tudo.
O desespero e a angústia já tinham tomado conta de sua rotina.
Dormir se tornara impossível.
Comer… um esforço.
Pensar… um tormento.
E havia outra coisa.
Algo que ela evitava admitir até para si mesma.
Agora… não tinha mais ao seu lado o melhor funcionário que já teve em todo aquele tempo.
A pessoa que durante anos segurou a loja, resolveu problemas, trouxe movimento e fez o negócio continuar funcionando.
Sem ele…
tudo parecia ainda mais difícil.
A loja sem abrir.
As contas acumulando.
O medo crescendo.
Alzira passou a manhã andando de um lado para o outro.
Olhava pela janela.
Voltava para o sofá.
Pegava o celular.
Largava.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Mas isso não a tranquilizava.
Pelo contrário.
Porque no fundo…
sabia.
O silêncio era só o intervalo.
O que Alzira ainda não sabia…
era que, nos próximos dias, novas notificações estavam prestes a chegar.
Dessa vez, não seriam apenas cartas anônimas, papéis misteriosos ou mensagens sem origem.
Agora…
viriam com o peso da formalidade.
Com timbres.
Com protocolos.
Com números.
E o pior.
Com o apoio de autoridades competentes.
Enquanto Vale Seco descansava no feriado, em salas frias e silenciosas, documentos começavam a ser analisados.
Relatos antigos.
Denúncias.
Irregularidades.
Movimentações suspeitas.
Pessoas dispostas a falar.
A colheita continuava crescendo.
E agora…
com testemunhas.
Para Alzira, o feriado não era descanso.
Era apenas o silêncio antes da queda.
Em breve capítulo 12
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