Depois do feriado, Vale Seco parecia diferente.
Não porque as ruas tivessem mudado.
Não porque o comércio tivesse retomado a rotina.
Mas porque o nome de Alzira Monteiro já não circulava apenas em cochichos.
Agora…
era assunto aberto.
Cada dia que passava, mais pessoas descobriam quem ela realmente era.
As histórias que antes eram contadas em voz baixa começaram a ganhar detalhes.
Fofocas antigas.
Mentiras espalhadas.
Pessoas que ela tentou passar para trás.
Irregularidades.
Problemas com a lei.
Tudo começava a sair das sombras.
Alzira sentia.
Mesmo sem sair muito.
Mesmo tentando evitar as ruas.
Mesmo fingindo que nada estava acontecendo.
Ela sentia.
Os olhares.
Os silêncios.
As conversas interrompidas quando passava.
Alzira era uma mulher amarga.
Arrogante.
Mal amada.
Daquelas que transformam a própria infelicidade em veneno para os outros.
A vida inteira preferiu ferir antes de ser ferida.
Falar antes de ouvir.
Julgar antes de entender.
E agora…
estava cercada por tudo aquilo que plantou.
O que ela ainda não sabia…
era que tudo estava cada vez mais próximo.
As notificações oficiais da justiça estavam prestes a começar a chegar.
Agora não se tratava mais apenas de rumores.
Nem de cartas anônimas.
Nem de mensagens.
Seriam documentos reais.
Formais.
Definitivos.
Mas o mais importante…
o que Alzira jamais conseguiu enxergar…
era que, sem perceber, estava jogando.
Um jogo silencioso.
Frio.
Calculado.
Um jogo de xadrez contra Miguel Duarte
Os movimentos já haviam começado fazia tempo.
Cada silêncio.
Cada papel.
Cada descoberta em Vale Seco.
Cada segredo exposto.
Cada ausência de paz.
Nada era acaso.
Tudo era movimento.
E Alzira…
sem sequer entender o tabuleiro…
continuava se movendo.
Errado.
Sempre errado.
Porque, naquele jogo, só existiria um vencedor.
Miguel.
O xeque-mate não seria dado por sorte.
Não seria por impulso.
Não seria por acaso.
Já estava sendo construído peça por peça.
Movimento por movimento.
Alzira.
Célio.
Adalberto Careca.
Todos.
Eram apenas peões no jogo de xadrez de Miguel.
E como em todo jogo de xadrez…
os peões são os primeiros a cair.
Alzira ainda acreditava ter algum controle.
Ainda acreditava que poderia reagir.
Que conseguiria se defender.
Que teria tempo.
Mas o tabuleiro já estava montado.
As peças já estavam posicionadas.
O fim…
já tinha sido decidido.
XEQUE MATE
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O Eco do Abismo
