A noite tinha caído cedo sobre a cidade.
A rua, tão conhecida durante o dia, parecia outra depois do anoitecer. Os postes lançavam uma luz fraca e amarelada sobre o asfalto úmido, e o silêncio era quebrado apenas pelo som lento de passos arrastados.
Foi então que o cortejo apareceu.
Vinha descendo pela rua que levava ao cemitério municipal.
Homens e mulheres vestidos de preto caminhavam em silêncio absoluto, com os rostos baixos, como se nenhum deles tivesse coragem de olhar para frente. No centro do grupo, carregado por quatro homens pálidos, seguia o caixão.
Mas havia algo errado.
Muito errado.
A tampa estava entreaberta.
E de dentro dela surgia uma chama viva.
No início parecia apenas um reflexo, uma luz tremulando na escuridão. Mas, à medida que o enterro se aproximava, ficou impossível ignorar: a cabeça do morto estava em chamas.
O fogo subia em labaredas alaranjadas, iluminando os rostos vazios das pessoas ao redor.
Mesmo assim, ninguém gritava.
Ninguém corria.
Ninguém parecia achar aquilo estranho.
Então uma voz começou a ecoar.
Não vinha de lugar algum e, ao mesmo tempo, parecia vir de todos os lados — dos postes, das árvores, do próprio vento.
Era uma voz grave, lenta, quase ritualística.
— E assim passa mais uma vez o enterro do Cabeça de Fogo…
O narrador continuou, como se estivesse contando uma história antiga da cidade.
— Dizem que ele não descansa. Dizem que o fogo consome apenas sua cabeça porque seus pensamentos jamais morreram. A maldade que carregava em vida continua queimando, noite após noite.
O cortejo passou diante de mim.
Foi quando eu vi.
Os olhos do morto estavam abertos.
Em meio às chamas, duas pupilas negras me encaravam diretamente.
Meu corpo congelou.
A voz voltou a falar.
— E toda vez que alguém olha para ele… ele volta para buscar companhia.
Na mesma hora, todas as pessoas do enterro pararam.
Ao mesmo tempo.
Como se obedecessem a uma ordem silenciosa.
E então viraram lentamente os rostos na minha direção.
Todos sorriam.
Um sorriso frio, largo, impossível.
Os carregadores pararam no meio da rua.
O caixão começou a se mover sozinho.
A tampa se abriu de vez.
O morto se ergueu lentamente, com o rosto consumido pelo fogo, a pele escurecida e rachada, as chamas dançando ao redor de seus olhos.
Foi nesse momento que acordei.