Em 1984, a Disney enfrentava um dos momentos mais delicados de sua história. A empresa passava por uma crise criativa, suas animações já não encantavam o público como antes e os resultados financeiros estavam longe do esperado. Foi nesse cenário que Michael Eisner assumiu o cargo de CEO com a missão de revitalizar o império do entretenimento.
Para colocar seu plano em prática, Eisner trouxe Jeffrey Katzenberg para liderar a divisão de estúdios. A aposta deu resultado. Sob sua gestão, a Disney iniciou um dos períodos mais brilhantes de sua história, conhecido como o Renascimento Disney.
Vieram sucessos consecutivos que marcaram gerações: A Pequena Sereia (1989), A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e O Rei Leão (1994). As animações transformaram a empresa em uma potência novamente e impulsionaram os lucros de forma impressionante.
Durante esse período, a receita anual da divisão cinematográfica saltou de aproximadamente US$ 320 milhões para cerca de US$ 3,7 bilhões. O sucesso parecia consolidado.
O conflito nos bastidores
Enquanto os resultados melhoravam, a relação entre Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg se desgastava.
Katzenberg acreditava que seu trabalho havia sido decisivo para a recuperação da Disney e buscava maior reconhecimento dentro da empresa. A situação se tornou ainda mais delicada em 1994, quando Frank Wells, então presidente da Disney, morreu em um acidente de helicóptero.
Katzenberg esperava assumir o cargo deixado por Wells. No entanto, Eisner recusou sua promoção. Segundo diversos relatos publicados ao longo dos anos, o CEO temia concentrar poder nas mãos de um executivo extremamente influente e difícil de controlar.
Sem chegar a um acordo, Katzenberg deixou oficialmente a Disney em agosto de 1994.
O nascimento da DreamWorks
A saída marcou o início de um novo capítulo na indústria do entretenimento.
Poucos meses depois, Jeffrey Katzenberg uniu forças com Steven Spielberg e David Geffen para fundar a DreamWorks SKG, um novo estúdio que rapidamente passou a competir com os gigantes de Hollywood.
A ruptura, porém, teve consequências imediatas para a Disney.
O alto custo da separação
Após deixar a empresa, Katzenberg entrou na Justiça cobrando um bônus contratual relacionado ao desempenho financeiro alcançado durante sua gestão.
Especialistas afirmam que a disputa poderia ter sido encerrada por cerca de US$ 90 milhões em um acordo. A Disney optou por levar o caso até o fim e acabou sendo obrigada a pagar aproximadamente US$ 270 milhões.
Na tentativa de reorganizar sua liderança, a empresa contratou Michael Ovitz como presidente. A parceria, entretanto, durou pouco mais de um ano e terminou com uma indenização estimada em cerca de US$ 140 milhões após sua saída.
Somando processos, acordos e mudanças na diretoria, a ruptura gerou um impacto financeiro significativo.
Shrek muda o jogo
Em 2001, a DreamWorks lançou aquele que se tornaria um de seus maiores sucessos: Shrek.
O filme satirizava diversos elementos clássicos dos contos de fadas popularizados pela Disney e conquistou público e crítica. A animação arrecadou cerca de US$ 494 milhões nas bilheterias mundiais e entrou para a história ao vencer o primeiro Oscar de Melhor Filme de Animação.
Mais do que um sucesso comercial, Shrek consolidou a DreamWorks como uma concorrente de peso no mercado da animação.
Anos depois, em 2016, a DreamWorks Animation foi adquirida pela Comcast por aproximadamente US$ 3,8 bilhões, reforçando o valor construído pela empresa fundada por Katzenberg, Spielberg e Geffen.
Uma lição para qualquer empresa
A história mostra que organizações precisam estar preparadas para lidar com a saída de profissionais importantes. Nenhuma empresa pode depender eternamente de uma única pessoa.
No entanto, existe uma diferença fundamental entre perder um cargo e perder uma capacidade.
O cargo pode ser preenchido rapidamente por outro executivo. Já a capacidade de liderança, visão estratégica, relacionamento e habilidade para gerar resultados é muito mais difícil de reconstruir.
No caso da Disney, a empresa não perdeu apenas um executivo. Perdeu um dos principais responsáveis por um dos períodos mais lucrativos e criativos de sua história e, ao mesmo tempo, ajudou a criar um concorrente que mudaria o mercado da animação para sempre.
A trajetória de Jeffrey Katzenberg e da DreamWorks continua sendo um dos exemplos mais marcantes de como decisões de liderança podem produzir consequências financeiras e estratégicas que vão muito além do curto prazo.