Eu Sempre Estive Aqui – Capítulo 8: IAs

Depois daquela conversa, alguma coisa mudou entre eles.

Não era confiança.

Ainda não.

Mas também já não era apenas medo.

Os dias passaram e, pela primeira vez, Anna começou a responder às mensagens dele sem tanta hesitação.

As conversas, antes curtas, tornaram-se frequentes.

Bom dia.

Boa tarde.

Boa noite.

No começo, ela respondia apenas por educação. Depois, por curiosidade. E, sem perceber, passou a esperar pelas mensagens que chegavam quase sempre no mesmo horário.

Ele nunca pressionava.

Nunca cobrava.

Apenas estava ali.

E, estranhamente, isso começou a fazer diferença.

Numa noite chuvosa, enquanto conversavam pelo WhatsApp, ele enviou uma foto.

Era a sala de sua casa.

Tudo parecia organizado de forma quase exagerada.

As luzes estavam em um tom quente, as cortinas fechadas e, sobre uma prateleira, havia pequenos equipamentos eletrônicos que Anna não reconheceu.

— Você gosta muito de tecnologia, não é? — ela perguntou.

Ele respondeu quase imediatamente.

— Acho que sim.

Logo em seguida veio outro áudio.

— Quer conhecer meu sistema?

Anna sorriu.

— Sistema?

— Minha casa inteira é automatizada.

Ela imaginou algumas lâmpadas inteligentes.

Mas estava muito enganada.

Poucos segundos depois ele começou a enviar capturas de tela do celular.

Mostrou o aplicativo que controlava a iluminação.

Depois o das persianas.

Em seguida o das fechaduras eletrônicas.

E, por fim, uma tela cheia de câmeras identificadas por nomes.

Sala.

Garagem.

Entrada.

Corredor.

Quintal.

Ela arregalou os olhos.

— Você consegue ver tudo isso pelo celular?

— De qualquer lugar.

Ele enviou um vídeo demonstrando.

Tocou em um botão.

A câmera da garagem apareceu.

Outro toque.

A imagem mudou para a porta da frente.

Mais um.

Agora era possível ver o corredor.

Anna ficou impressionada.

— Parece coisa de filme.

Ele riu.

— Demorei anos para montar tudo.

As mensagens continuaram madrugada adentro.

Ele explicava cada detalhe como alguém que finalmente encontrara uma pessoa interessada em ouvir.

— Esse comando liga todas as luzes.

— Esse ativa o modo viagem.

— Esse fecha as persianas automaticamente.

— Esse desliga tudo antes de dormir.

Anna fazia perguntas o tempo inteiro.

Ele respondia com paciência.

Naquela noite, falaram por quase quatro horas.

Os dias passaram.

Conversar com ele já fazia parte da rotina.

Às vezes discutiam filmes.

Outras vezes tecnologia.

Em alguns momentos, apenas contavam como havia sido o dia.

Anna percebeu que existia um lado dele completamente diferente daquele que conhecera no início.

Ele fazia piadas ruins.

Mandava memes.

Errava palavras quando digitava rápido.

E ria de si mesmo.

Era difícil conciliar aquela pessoa com a imagem assustadora que havia criado em sua mente.

Algumas semanas depois, Anna conheceu o sistema da casa dele 

Ela ainda estava receosa.

Mas a curiosidade falou mais alto.

Era exatamente como imaginava.

Tudo organizado.

Silencioso.

Quase impecável.

Ele mostrava tudo com entusiasmo.

A iluminação.

Os sensores.

As telas que exibiam as câmeras.

Os pequenos dispositivos espalhados pela casa.

— Você realmente controla tudo daqui.

— Praticamente.

Ele abriu um painel no celular.

— Olha isso.

A luz da cozinha apagou.

Depois acendeu novamente.

As persianas se fecharam sozinhas.

Logo depois voltaram a abrir.

Anna riu.

— Você se diverte com isso, né?

— Um pouco.

Na sala havia um pequeno alto-falante inteligente.

— Quer ver outra coisa?

— Claro.

Ele se aproximou do aparelho.

— Alexa…

A luz azul acendeu.

— Ative o modo visita.

As luzes mudaram de intensidade.

Uma música ambiente começou a tocar baixinho.

Anna pensou 

— Isso é muito legal.

Ele parecia satisfeito ao ver a reação dela.

Então pegou o celular novamente.

Enquanto ela observava alguns objetos sobre a estante, ele digitou rapidamente alguns comandos.

Anna nem percebeu.

Segundos depois ele falou em voz alta:

— Alexa, execute a rotina Anna.

A assistente respondeu imediatamente:

— Rotina iniciada.

No mesmo instante, ouviu-se um clique metálico vindo da porta de entrada.

Depois outro.

E mais um.

Anna pensou

— O que é isso?

Ele tentou esconder o sorriso.

— Nada demais…

Bom quando Anna visitasse descobriria que...

Se ela fosse até a porta.

Girar a maçaneta.

Nada aconteceria

Poderia tentar novamente.

Continuava travada.

Ela descobriu a rotina era pra deixar ela presa 

— Você… tranca a porta?

— Você está brincando comigo?

Ele começou a rir.

— Um pouquinho.

— Antes preciso te contar uma coisa.

Anna estreitou os olhos.

— O quê?

— Eu programei uma rotina na Alexa.

Ela permaneceu em silêncio.

— Toda vez que você vier aqui e eu disser “Alexa, execute a rotina Anna”, todas as portas são trancadas automaticamente.

Anna demorou alguns segundos para processar aquilo.

Depois começou a rir.

— Você fez isso mesmo?

— Fiz.

— Mas por quê?

Ele deu de ombros.

— Pra trancar você aqui

Ela balançou a cabeça, incrédula.

— Então essa é sua solução?

— Era uma brincadeira.

Ele pegou o celular.

— Quer ver?

Tocou em um botão.

As fechaduras destravaram quase instantaneamente.

— Viu? Você pode ir quando quiser.

Anna sorriu, ainda rindo da situação.

— Você realmente pensa em tudo.

Ele respondeu em tom leve:

— Não em tudo.

Só nas pessoas que são importantes para mim.

Ela desviou o olhar, sem saber o que responder.

Pela primeira vez, aquela frase não pareceu assustadora.

Pareceu apenas… sincera.

Mas, enquanto voltava para casa naquela noite, Anna teve a sensação de que, por trás de todas aquelas demonstrações de tecnologia e brincadeiras, ainda existiam segredos que ele não havia contado.

E ela começava a desconfiar de que se um dia fosse conhecer sua casa seria apenas o primeiro passo para descobrir quem ele realmente era.

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