O Habib’s, uma das redes de fast-food mais conhecidas do Brasil, enfrenta uma das maiores crises financeiras de sua história. O Grupo Gennius, controlador do Habib’s e de outras marcas do setor de alimentação, entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, declarando uma dívida de aproximadamente R$ 265,2 milhões.
O pedido foi protocolado na segunda-feira, 24 de agosto de 2026, e acabou sendo aceito pela Justiça. A decisão foi tomada pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que também determinou medidas para permitir que o grupo tente reorganizar suas finanças e negociar com os credores.
Apesar da recuperação judicial, o grupo afirma que as lojas continuam funcionando normalmente, sem interrupção no atendimento aos consumidores.
O que é o Grupo Gennius?
O processo não envolve apenas a tradicional rede de esfihas. O Grupo Gennius reúne diferentes empresas e marcas ligadas ao setor de alimentação.
Além do Habib’s, o conglomerado controla negócios como o Ragazzo e o Tendall Grill, entre outras operações.
Segundo informações divulgadas sobre o processo, a recuperação judicial reúne 178 pessoas jurídicas, incluindo empresas franqueadoras, holdings e sociedades operacionais. Também estão incluídas no processo unidades das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall.
Atualmente, o grupo possui centenas de restaurantes espalhados pelo Brasil e tem uma trajetória de quase quatro décadas no mercado.
Por que o Habib’s chegou à recuperação judicial?
No pedido apresentado à Justiça, o Grupo Gennius aponta uma combinação de fatores que teria provocado o agravamento de sua situação financeira.
Um dos principais problemas mencionados foi o impacto da pandemia de Covid-19, especialmente entre 2020 e 2022.
O modelo de negócios do grupo era fortemente baseado em grandes restaurantes localizados em áreas de grande circulação, como centros urbanos e regiões próximas a shoppings. Com o isolamento social e a redução da circulação de consumidores, essas unidades passaram a enfrentar dificuldades para gerar receitas suficientes para sustentar sua estrutura.
O próprio grupo afirma que houve um descompasso entre os investimentos realizados na expansão da rede e a receita obtida durante esse período.
Avanço do delivery também mudou o mercado
Outro fator apontado pela empresa foi a transformação dos hábitos de consumo.
O crescimento acelerado das plataformas digitais de entrega modificou a maneira como os brasileiros compram comida. Com mais consumidores fazendo pedidos por aplicativos, parte da demanda que antes dependia da presença física nos restaurantes passou para o delivery.
Para uma empresa que construiu uma grande estrutura de restaurantes físicos, essa mudança representou um desafio significativo.
O grupo também passou a revisar seu modelo de operação, fechando pontos considerados deficitários e buscando formatos menores, incluindo lojas em praças de alimentação, quiosques e estruturas voltadas ao delivery.
Juros altos agravaram a situação
O aumento dos juros também aparece entre os motivos apresentados pelo Grupo Gennius.
Segundo informações do processo, a elevação da taxa Selic aumentou o custo de captação e de rolagem das dívidas. O grupo afirma que o cenário econômico tornou ainda mais difícil administrar seu endividamento e manter o fluxo de caixa necessário para sustentar as operações.
A empresa também já havia informado anteriormente que acumulava mais de R$ 300 milhões em dívidas bancárias, que passaram a consumir uma parcela significativa de seu fluxo de caixa.
Habib’s tentou evitar a recuperação judicial
Antes de recorrer à recuperação judicial, o Grupo Gennius tentou encontrar uma solução por meio de negociações com seus credores.
Em junho, o grupo buscou um procedimento de mediação pré-processual para tentar renegociar seus compromissos financeiros sem precisar entrar oficialmente em recuperação judicial.
Posteriormente, a Justiça concedeu medidas cautelares que deram ao grupo proteção temporária contra determinadas cobranças.
A estratégia, porém, não foi suficiente para solucionar a crise financeira, levando o conglomerado a apresentar o pedido de recuperação judicial em agosto.
Justiça aceita pedido e nomeia administradora judicial
Com o deferimento da recuperação judicial, a Justiça nomeou a KPMG Corporate Finance para atuar como administradora judicial do processo.
O grupo terá agora 60 dias para apresentar seu plano de recuperação, no qual deverá explicar aos credores como pretende reorganizar suas finanças e cumprir suas obrigações.
Caso não apresente o plano dentro do prazo determinado, o processo poderá sofrer consequências graves, inclusive a possibilidade de decretação de falência.
A recuperação judicial, entretanto, não significa que a empresa tenha fechado as portas ou declarado falência. Trata-se de um mecanismo previsto pela legislação brasileira para permitir que empresas em dificuldades financeiras negociem suas dívidas e tentem continuar suas atividades.
E as lojas do Habib’s? Vão fechar?
Por enquanto, não.
O Grupo Gennius informou que as operações continuam funcionando normalmente e que os clientes podem continuar frequentando as unidades das marcas do grupo.
Em comunicado divulgado após o deferimento da recuperação judicial, a companhia afirmou que a medida faz parte de um processo de reestruturação financeira e tem como objetivo preservar a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Portanto, o pedido de recuperação judicial não significa que o Habib’s esteja encerrando suas atividades.
A continuidade da operação dependerá, porém, da capacidade do grupo de colocar em prática um plano de recuperação considerado viável e negociar com seus credores.
O que acontece agora?
A partir de agora, começa uma nova etapa para o grupo.
Entre os principais passos estão:
* apresentação do plano de recuperação judicial;
* levantamento e análise dos créditos dos credores;
* negociação das condições de pagamento;
* fiscalização do processo pela administradora judicial;
* votação do plano pelos credores, conforme as regras aplicáveis;
* execução do plano caso seja aprovado.
A Justiça também determinou medidas relacionadas às cobranças contra as empresas envolvidas no processo. Entretanto, nem todos os ativos e recebíveis estão necessariamente sujeitos às mesmas regras.
Um dos pontos discutidos no processo envolve recebíveis bancários cedidos em garantia fiduciária. O pedido do grupo para liberar determinadas travas bancárias não foi integralmente acolhido pela Justiça.
Uma nova fase para uma marca histórica
Fundado em 1988 por Alberto Saraiva, o Habib’s cresceu a partir de uma proposta simples: oferecer comida de inspiração árabe a preços acessíveis, tendo a esfiha como um de seus principais símbolos.
A estratégia ajudou a transformar a marca em uma das maiores redes de alimentação rápida do país. Durante sua expansão, o grupo chegou a operar centenas de unidades e ampliou seus negócios para outras marcas e formatos de restaurantes.
Agora, quase quatro décadas depois de sua criação, a companhia precisa enfrentar uma das fases mais delicadas de sua história.
A recuperação judicial será justamente o mecanismo utilizado pelo Grupo Gennius para tentar reorganizar suas dívidas, preservar as operações e encontrar um caminho sustentável para os próximos anos.
Por enquanto, a mensagem oficial da empresa é de continuidade: o Habib’s não anunciou o fechamento de suas lojas e afirma que suas operações seguem normalmente. O grande desafio será transformar essa continuidade em uma recuperação financeira capaz de garantir a sobrevivência e a expansão do grupo no longo prazo.