A antiga rivalidade entre J.K. Rowling e Nicola Sturgeon voltou a ganhar força nesta semana, com novas críticas públicas trocadas entre a autora de Harry Potter e a ex-primeira-ministra da Escócia. O conflito, que começou a se intensificar por causa do debate sobre direitos das mulheres e legislação para pessoas trans, ganhou agora novos capítulos envolvendo a atuação política de Sturgeon, seu livro de memórias e as consequências de suas decisões enquanto governava o país.
O mais recente confronto começou depois que Rowling fez duras críticas a Sturgeon, classificando-a como uma “misógina de nível mundial” e questionando sua atuação política e pessoal. A escritora também atacou a ex-líder do Partido Nacional Escocês (SNP) por questões relacionadas ao seu marido, Peter Murrell, que foi condenado por desviar mais de £400 mil dos recursos do partido. (The Times)
Sturgeon, por sua vez, reagiu às críticas afirmando que Rowling parece “obcecada” por ela. Em uma aparição durante o Edinburgh Festival Fringe, a ex-primeira-ministra disse que não considera existir uma guerra pessoal entre as duas, embora tenha deixado claro que acredita que qualquer tentativa de encerrar a disputa deveria partir da autora. (The Scottish Sun)
Uma rivalidade que começou na política
Apesar de o novo episódio envolver outros assuntos, a origem da disputa está principalmente na controversa reforma das leis de reconhecimento de gênero na Escócia.
Durante o governo de Sturgeon, o Parlamento escocês aprovou uma proposta de reforma que pretendia facilitar o processo pelo qual uma pessoa poderia alterar legalmente seu gênero. Rowling se tornou uma das principais figuras públicas a se opor à iniciativa.
Em 2022, a escritora chegou a publicar uma fotografia na qual usava uma camiseta com a frase “Nicola Sturgeon: Destroyer of Women’s Rights” (“Nicola Sturgeon: Destruidora dos direitos das mulheres”). A atitude transformou a divergência política em um confronto pessoal muito mais visível. (Sky News)
O governo britânico posteriormente bloqueou a implementação da reforma aprovada pelo Parlamento escocês, desencadeando uma disputa constitucional e política que se prolongou por anos.
O debate sobre os direitos das mulheres
Rowling afirma que suas críticas são motivadas pela defesa dos direitos das mulheres e pela preocupação com os efeitos de políticas de autoidentificação de gênero em espaços destinados exclusivamente ao sexo feminino.
Sturgeon adotou uma posição oposta e defendeu a ampliação dos direitos das pessoas trans. Ao longo da controvérsia, a ex-primeira-ministra argumentou que a discussão havia se tornado extremamente polarizada e criticou a forma como alguns opositores das reformas conduziam o debate.
A questão ganhou ainda mais importância depois que a Suprema Corte do Reino Unido decidiu, em abril de 2025, sobre a interpretação dos termos “mulher” e “sexo” na Equality Act 2010. A decisão foi considerada uma vitória significativa por grupos que defendem uma abordagem baseada no sexo biológico, entre eles a organização For Women Scotland, que contou com o apoio público de Rowling. (Wikipedia)
Sturgeon, entretanto, continuou defendendo a necessidade de proteger os direitos das pessoas trans e afirmou que a decisão judicial deveria ser aplicada de maneira que também preservasse esses direitos. (The Guardian)
O livro de memórias colocou mais lenha na fogueira
A publicação das memórias de Sturgeon, intituladas Frankly, também contribuiu para reabrir o confronto.
No livro, a ex-primeira-ministra relembra o período em que esteve no centro da disputa sobre a reforma de gênero e descreve o impacto que recebeu das críticas públicas, incluindo a manifestação de Rowling com a camiseta contra ela.
Rowling respondeu com uma longa crítica ao livro em seu próprio site. Em seu texto, a autora atacou duramente a trajetória política de Sturgeon e questionou diversas passagens das memórias. A crítica foi tão extensa que acabou se tornando um novo episódio da rivalidade entre as duas. (J.K. Rowling)
Sturgeon posteriormente comentou que não entendia como Rowling encontrava tempo para dedicar tanta atenção a ela, afirmando que a suposta obsessão não era recíproca. (Reddit)
Agora, o conflito vai além da questão trans
O confronto mais recente mostra que a relação entre as duas já ultrapassou o debate original sobre legislação de gênero.
Nas novas declarações, Rowling criticou Sturgeon também por sua relação com o SNP e por comentários feitos pela ex-primeira-ministra sobre a atual situação política do partido. A escritora acusou Sturgeon de deslealdade e retomou questões relacionadas ao escândalo financeiro envolvendo Peter Murrell. (The Times)
Sturgeon, por outro lado, continua afirmando que não pretende transformar a disputa em uma guerra pessoal. Ainda assim, suas respostas mostram que as críticas de Rowling continuam sendo uma questão recorrente sempre que seu legado político ou as reformas de gênero são discutidos.
Uma disputa que parece longe do fim
A rivalidade entre J.K. Rowling e Nicola Sturgeon se tornou um dos exemplos mais conhecidos da divisão provocada pelo debate sobre sexo, gênero e direitos das pessoas trans no Reino Unido.
O que começou como uma divergência entre uma escritora mundialmente famosa e uma chefe de governo acabou evoluindo para uma longa troca de acusações, críticas públicas e disputas sobre a interpretação do legado político de Sturgeon.
Agora, com Rowling voltando a atacar a ex-primeira-ministra e Sturgeon respondendo que a autora está excessivamente focada nela, a antiga rivalidade ganha mais um capítulo.
E, ao contrário de uma simples discussão política do passado, o novo confronto mostra que as duas continuam enxergando de maneiras completamente diferentes não apenas a questão dos direitos das mulheres e das pessoas trans, mas também o legado deixado pelas decisões tomadas durante os anos de Sturgeon no comando da Escócia.