O Anjo Malvado (The Good Son) é um suspense psicológico lançado em 1993 que ficou marcado por colocar dois dos maiores astros mirins daquela geração frente a frente: Macaulay Culkin, conhecido mundialmente por Esqueceram de Mim, e Elijah Wood, que anos mais tarde se tornaria famoso por interpretar Frodo na trilogia O Senhor dos Anéis.
Dirigido por Joseph Ruben e escrito pelo romancista britânico Ian McEwan, o longa combina drama familiar, suspense e terror psicológico para contar uma história particularmente perturbadora: e se uma criança aparentemente perfeita escondesse uma personalidade extremamente cruel?
Com aproximadamente 87 minutos de duração, o filme foi lançado nos Estados Unidos em 24 de setembro de 1993 e chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 1994.
A história de Mark
A trama acompanha Mark Evans, interpretado por Elijah Wood, um garoto que acaba de enfrentar uma das experiências mais dolorosas de sua vida: a morte de sua mãe.
Seu pai, Jack, precisa viajar para o Japão a trabalho e decide deixar Mark temporariamente sob os cuidados do irmão, Wallace, e de sua esposa, Susan, que vivem no Maine com os filhos Henry e Connie.
A mudança representa uma oportunidade para Mark se afastar momentaneamente do trauma e conviver com outros familiares. Entretanto, aquilo que deveria ser apenas uma temporada tranquila acaba se transformando em um pesadelo.
Mark inicialmente se aproxima de Henry Evans, seu primo de idade semelhante. Interpretado por Macaulay Culkin, Henry parece ser um garoto educado, inteligente e carismático.
É justamente essa aparência que torna o personagem tão assustador.
Por trás do comportamento aparentemente perfeito existe uma criança fascinada pela morte, pelo sofrimento e pela possibilidade de manipular as pessoas ao seu redor.
Henry Evans: o verdadeiro vilão
Henry é o centro de toda a história.
Diferentemente de muitos vilões tradicionais, ele não tem uma aparência ameaçadora. Pelo contrário: é um garoto de aparência angelical, capaz de conquistar rapidamente a confiança dos adultos.
O título brasileiro O Anjo Malvado brinca justamente com essa contradição.
Henry consegue parecer inocente enquanto pratica ou planeja atos extremamente violentos.
Sua personalidade começa a ficar evidente quando ele conversa com Mark sobre morte e demonstra uma curiosidade perturbadora sobre tragédias. Aos poucos, Mark percebe que seu primo não encara a violência como algo assustador, mas como uma espécie de brincadeira.
Essa característica é fundamental para o suspense do filme: os adultos enxergam Henry como uma criança normal, enquanto Mark percebe o perigo que existe por trás daquele comportamento.
A brincadeira que provoca um acidente na estrada
Uma das primeiras demonstrações graves da crueldade de Henry acontece quando ele coloca em prática uma brincadeira extremamente perigosa.
Ele joga um boneco, conhecido como Mr. Highway, de uma ponte para uma estrada movimentada.
O objeto provoca uma reação em cadeia que resulta em um grave acidente envolvendo vários veículos.
Para Henry, aquilo parece ser apenas diversão.
Para Mark, entretanto, fica cada vez mais claro que seu primo não possui o mesmo senso de culpa ou empatia que outras pessoas.
O episódio também estabelece uma característica importante do personagem: Henry não age apenas por impulso. Ele gosta de planejar situações perigosas e observar suas consequências.
O cachorro e a crueldade de Henry
Outro momento perturbador envolve um cachorro.
Henry demonstra uma frieza assustadora ao matar o animal, reforçando para Mark que o comportamento do garoto não é apenas uma série de brincadeiras infantis que deram errado.
A violência contra o cachorro é importante porque mostra que Henry não precisa estar diante de uma situação de perigo para agir. Ele parece obter satisfação simplesmente ao provocar sofrimento.
É nesse ponto que Mark começa a compreender que está diante de algo muito mais sério.
Mark tenta avisar os adultos
O grande problema é que ninguém acredita em Mark.
Henry sabe exatamente como manipular as situações.
Quando Mark tenta explicar o comportamento do primo, Henry consegue fazer com que os adultos enxerguem Mark como uma criança traumatizada e emocionalmente instável.
Isso acontece principalmente porque Mark realmente está passando por um momento psicológico extremamente difícil após a morte da mãe.
O próprio garoto carrega culpa pelo acontecimento e está emocionalmente fragilizado.
Henry percebe essa vulnerabilidade e a utiliza contra ele.
O resultado é uma situação angustiante: Mark sabe que existe algo errado, mas quanto mais tenta denunciar Henry, mais parece que ele próprio é o problema.
O plano contra Connie
A situação se torna ainda mais perigosa quando Henry passa a colocar sua própria irmã, Connie, em risco.
Mark percebe que seu primo pretende machucá-la e tenta ficar próximo dela para protegê-la.
Em determinado momento, Henry leva Connie para patinar em uma área congelada.
O que poderia parecer um simples passeio se transforma em uma armadilha.
Henry provoca a queda da menina em uma região de gelo fino, fazendo com que ela caia na água gelada.
Connie é resgatada, mas seu estado é grave.
Para os adultos, aquilo inicialmente parece ter sido um acidente.
Para Mark, não existe dúvida: Henry fez aquilo de propósito.
Henry tenta terminar o serviço
Mesmo depois do acidente, Henry não desiste.
Quando Connie está hospitalizada, ele tenta sufocá-la.
Susan, que até então tinha dificuldades para acreditar nas acusações de Mark, começa finalmente a perceber que existe algo muito errado com o próprio filho.
Ela interfere antes que Henry consiga matar Connie.
Esse momento começa a destruir a imagem de “bom filho” que Henry havia construído diante da família.
O mistério envolvendo Richard
Existe ainda outro acontecimento sombrio no passado da família.
Antes dos acontecimentos principais do filme, Richard, irmão mais novo de Henry e Connie, havia morrido afogado na banheira.
A morte de Richard inicialmente é tratada como uma tragédia familiar.
Porém, Mark começa a desconfiar que Henry pode ter tido alguma participação no ocorrido.
A suspeita ganha força quando Susan encontra um patinho de borracha que pertencia a Richard.
O brinquedo havia desaparecido depois da morte do menino e estava em posse de Henry.
Quando Susan confronta o filho, Henry tenta minimizar a situação, afirmando que o brinquedo originalmente havia sido dele.
A discussão, entretanto, deixa evidente algo muito mais perturbador: Henry não demonstra o sofrimento esperado pela perda do irmão.
Ele pega o brinquedo e acaba jogando-o dentro de um poço.
Henry percebe que está perdendo a mãe
A relação entre Mark e Susan começa a ficar cada vez mais próxima.
Mark passa a enxergar Susan como uma figura materna, especialmente porque ainda está sofrendo pela morte de sua própria mãe.
Henry percebe essa aproximação e sente ciúme.
Ele entende que Mark está conquistando a atenção e o carinho de Susan.
Isso representa uma ameaça para ele.
Henry começa então a insinuar que poderia matar Susan para impedir que Mark desenvolvesse aquela relação.
É nesse momento que o conflito deixa de ser apenas uma disputa entre dois primos e se transforma em uma luta pela sobrevivência.
Susan finalmente descobre a verdade
Depois de uma briga entre Mark e Henry, os adultos acreditam novamente que Mark está exagerando.
Mark chega a ser trancado em um cômodo da casa.
Enquanto isso, Henry consegue convencer Susan a acompanhá-lo para uma caminhada.
Mark consegue escapar e segue os dois.
Durante a conversa, Susan finalmente confronta Henry sobre Richard.
Ela pergunta diretamente se ele teve alguma participação na morte do irmão.
Henry responde de maneira provocadora, deixando claro que a possibilidade é verdadeira.
A essa altura, Susan finalmente compreende que Mark estava dizendo a verdade.
Seu próprio filho é responsável por uma sequência de acontecimentos terríveis.
O confronto final
Susan tenta convencer Henry de que ele precisa de ajuda.
Mas Henry foge.
Susan corre atrás dele e acaba chegando a uma região de penhascos.
É ali que acontece o confronto definitivo.
Henry empurra a própria mãe do precipício.
Susan consegue se segurar em uma saliência, ficando pendurada acima do mar.
Henry ainda tenta matá-la jogando uma pedra contra ela.
Nesse momento, Mark aparece.
O garoto enfrenta o primo e consegue impedir que Henry termine de matar Susan.
Durante a luta, os dois acabam escorregando e ficando em uma situação extremamente perigosa na beira do penhasco.
Susan consegue alcançar os dois.
Ela segura Mark com uma das mãos e Henry com a outra.
Mas existe um problema: ela não consegue sustentar os dois indefinidamente.
O final de O Anjo Malvado
Susan precisa fazer uma escolha impossível.
De um lado está seu filho biológico, Henry.
Do outro está seu sobrinho Mark, que passou toda a história tentando proteger sua filha e revelar a verdade sobre Henry.
A mão de Mark começa a escorregar.
Susan percebe que não conseguirá salvar os dois.
Então ela toma uma decisão devastadora:
Susan solta Henry.
O garoto cai do penhasco e morre, sendo levado pelo mar.
Susan consegue puxar Mark para cima e salvar sua vida.
É um dos finais mais marcantes do filme justamente porque Susan é obrigada a escolher entre dois meninos que ama de maneiras completamente diferentes.
Por que Susan escolheu Mark?
A decisão de Susan não significa simplesmente que ela deixou de amar Henry.
Naquele momento, ela compreende que Henry representa uma ameaça real.
Ele tentou matar a própria irmã, tentou matar a própria mãe e esteve relacionado a acontecimentos violentos anteriores.
Além disso, Henry não demonstra arrependimento genuíno.
Susan percebe que, se salvar Henry, provavelmente estará permitindo que ele continue colocando outras pessoas em perigo.
Sua escolha é, portanto, uma combinação de instinto de sobrevivência, proteção de Mark e reconhecimento da verdadeira natureza do filho.
A Última Cena e a Pergunta que Fica
Depois dos acontecimentos, Mark retorna para casa.
O filme termina de maneira bastante silenciosa.
Em vez de apresentar uma grande explicação sobre tudo o que aconteceu, a história deixa Mark refletindo sobre a decisão de Susan.
Ele se pergunta, essencialmente, se sua tia faria a mesma escolha novamente caso tivesse uma segunda oportunidade.
A pergunta é importante porque não existe uma resposta fácil.
Susan salvou Mark, mas precisou assistir ao próprio filho morrer.
O filme termina deixando o público diante desse dilema moral.
Macaulay Culkin em um papel completamente diferente
Um dos maiores atrativos de O Anjo Malvado foi justamente a escalação de Macaulay Culkin.
Na época, o ator era uma das maiores estrelas infantis de Hollywood graças ao enorme sucesso de Esqueceram de Mim.
Pouco tempo depois, ele apareceria novamente como Kevin McCallister em Esqueceram de Mim 2.
Por isso, vê-lo interpretar uma criança manipuladora e homicida causou grande impacto.
Henry é praticamente o oposto de Kevin.
Enquanto Kevin era um garoto carismático que utilizava criatividade para se defender, Henry usa inteligência e criatividade para causar sofrimento.
Essa mudança de imagem foi uma das principais razões pelas quais o filme chamou tanta atenção.
Elijah Wood também estava no início da carreira
Do outro lado estava Elijah Wood, que interpretava Mark.
Naquele momento, Wood ainda era um jovem ator em ascensão.
Sua interpretação funciona como contraponto à de Culkin: Mark é sensível, traumatizado e assustado, enquanto Henry é calculista e manipulador.
A dinâmica entre os dois sustenta praticamente todo o filme.
Décadas depois, é curioso revisitar a produção sabendo que ambos seguiriam carreiras muito diferentes e extremamente bem-sucedidas em Hollywood.
Quinn Culkin interpreta Connie
Outro detalhe interessante do elenco é a presença de Quinn Culkin, irmã de Macaulay Culkin na vida real, interpretando Connie, a irmã de Henry.
Isso torna algumas cenas ainda mais curiosas para quem conhece a família Culkin.
Direção e clima do filme
A direção ficou a cargo de Joseph Ruben, cineasta conhecido também por Dormindo com o Inimigo.
O filme utiliza bastante a paisagem costeira do Maine para criar uma atmosfera isolada.
A casa, os bosques, as estradas, o gelo e principalmente os penhascos funcionam quase como extensões do perigo que envolve Henry.
O cenário aparentemente tranquilo contrasta com a violência da história.
Essa escolha contribui para a sensação de que o perigo pode estar escondido em qualquer lugar.
Um suspense psicológico, não apenas um filme de terror
Embora muitas pessoas classifiquem O Anjo Malvado como terror, o longa funciona principalmente como suspense psicológico e drama familiar, com elementos de terror.
O medo não vem de monstros ou acontecimentos sobrenaturais.
O verdadeiro terror está na possibilidade de uma criança aparentemente normal ser capaz de cometer atos terríveis.
Essa abordagem também faz com que o filme seja mais desconfortável do que um terror convencional.
Henry não precisa de poderes sobrenaturais.
Ele é assustador justamente porque parece uma criança comum.
O significado do título
O título original, The Good Son (O Bom Filho) pode ser entendido como uma provocação.
Henry é apresentado aos adultos como um “bom filho”: educado, carinhoso, inteligente e aparentemente preocupado com a família.
Mas essa imagem é uma fachada.
O título brasileiro, O Anjo Malvado, torna essa contradição ainda mais explícita.
A ideia de um “anjo” com uma natureza maligna resume perfeitamente o personagem de Macaulay Culkin.
Recepção
O filme teve uma recepção crítica dividida.
O Rotten Tomatoes registra atualmente 26% de aprovação da crítica, embora a recepção do público seja consideravelmente mais favorável, com 54% na plataforma. (Fonte: Rotten Tomatoes)
Roger Ebert, por exemplo, foi bastante negativo em sua crítica de 1993, considerando a experiência desconfortável e questionando algumas das escolhas do filme. (Fonte: Roger Ebert)
Apesar disso, o longa ganhou uma espécie de vida própria ao longo dos anos, especialmente entre espectadores que cresceram assistindo a filmes dos anos 1990.
O que torna o filme tão perturbador?
A principal força de O Anjo Malvado está no contraste.
Henry tem aparência de criança.
Ele vive em uma família aparentemente normal.
Ele conversa com os adultos de maneira educada.
Ele consegue sorrir e parecer inocente.
Mas, quando ninguém está olhando, revela uma personalidade extremamente cruel.
A história também explora outro medo bastante realista: o que acontece quando uma criança fala a verdade, mas os adultos não acreditam nela?
Mark não consegue simplesmente sair daquela situação.
Ele depende dos adultos para protegê-lo, mas justamente os adultos estão sendo manipulados por Henry.
O legado de O Anjo Malvado
Mais de três décadas depois de seu lançamento, O Anjo Malvado continua sendo lembrado principalmente pela atuação de Macaulay Culkin como Henry e pelo confronto com Elijah Wood.
O filme também ocupa um lugar curioso na carreira dos dois atores.
Culkin, conhecido por interpretar crianças adoráveis e engraçadas, assumiu um dos papéis mais sombrios de sua infância.
Wood, por sua vez, interpretou o menino que precisa enfrentar o mal antes de se tornar uma das maiores estrelas de fantasia e aventura do cinema.
O resultado é um suspense que permanece memorável não necessariamente por sua complexidade, mas pela premissa perturbadora e pelo dilema apresentado no final.
O Anjo Malvado é um filme de 1993 que transforma uma situação aparentemente simples — um garoto passando alguns dias na casa dos parentes — em uma história de paranoia, manipulação e sobrevivência.
Mark chega ao Maine tentando lidar com a morte da mãe e encontra em Henry um novo amigo. Porém, rapidamente descobre que o primo é muito diferente da imagem que apresenta aos adultos.
Ao longo da história, Henry provoca acidentes, coloca a irmã em perigo, manipula os adultos e revela uma relação perturbadora com a violência e a morte.
No fim, Susan finalmente percebe a verdade e precisa tomar a decisão mais dolorosa possível: salvar Mark e deixar Henry morrer.
É justamente essa escolha que faz o encerramento permanecer na memória do público.
O filme não termina apenas com a morte do vilão. Ele termina com uma pergunta moral: até onde uma mãe pode ir para proteger as pessoas que ama quando descobre que o próprio filho se tornou uma ameaça?
E é essa pergunta, mais do que os momentos de violência, que faz de O Anjo Malvado um dos suspenses infantis mais perturbadores do cinema dos anos 1990.
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