No capítulo anterior: Alzira começa a espalhar insinuações sobre Miguel pela cidade, usando sua falsa simpatia para plantar dúvidas sem nunca dizer nada diretamente. Aos poucos, seus comentários ganham força e se espalham entre as pessoas. Mesmo sendo conhecida por sua falsidade, ela continua manipulando quem está ao seu redor. No entanto, pequenos acontecimentos estranhos começam a surgir, indicando que suas atitudes podem estar prestes a ter consequências. Leia o Capítulo 2 Completo Aqui
O Eco do Abismo: Capítulo 3 - Pequenos Jogos
Os dias seguintes começaram a sair do lugar.
Primeiro, foram coisas pequenas. Um SMS aqui, um Whatsapp ali. Uma visita inesperada. Um Fiscal. Uma visita inesperada da Vigilância Sanitária.
Alzira tentava se convencer de que era apenas coincidência, mas no fundo ela já entendia onde tinha se metido.
Ela não era boba, era falsa, mas boba não.
Aos poucos, o desconforto se misturou à irritação. O pior era que, ao mesmo tempo em que essas coisas aconteciam, sua vida lá fora começava a sofrer rachaduras.
Na segunda-feira, dona Célia a parou na rua.
— Alzira, você pode me explicar por que disse para (nome preservado para maior privacidade) que eu critiquei o serviço dele, isso nunca aconteceu.
Alzira arregalou os olhos, ofendida.
— Eu? Jamais!
— Não mente pra mim. Tem testemunhas que ouviu de você.
Alzira respirou fundo, compôs a expressão.
— Célia, eu só repeti uma preocupação. Como amiga. Se você entendeu mal, sinto muito.
Mas Célia não se acalmou. Pela primeira vez, não aceitou o tom doce como desculpa.
— Você sempre faz isso. Joga a pedra e esconde a mão.
Aquilo a atingiu. Não pela acusação em si, mas porque foi feita em plena rua, à vista de quem passava. Dois comerciantes ouviram. Uma mulher que saía do mercado virou o rosto discretamente para observar.
Alzira foi embora dura, segurando a bolsa com força. Sentia uma irritação feroz, quase febril, para se acalmar acendeu um cigarro.
Naquela tarde, tentou retomar o controle. Visitou duas conhecidas, ligou para uma prima em outra cidade, comentou casualmente que Célia andava nervosa “sem motivo”. Mas algo estava diferente. As pessoas não se mostravam tão abertas. Algumas respondiam com frieza. Outras desconversavam.
Era como se uma camada invisível começasse a cair de seus olhos.
Na quarta-feira, ao passar pela feira, avistou Miguel sentado em um banco na banca do Fabinho, olhando o movimento. Alzira hesitou. Parte dela queria evitá-lo. Outra parte, maior, sentia necessidade de confrontar aquela presença silenciosa que parecia ter chegado ao centro de tudo.
Aproximou-se com elegância.
— Bom dia QUERIDOOO.
Miguel ergueu os olhos.
— Bom dia, Rica.
A voz dele era calma demais.
— Estão falando muito do senhor por aí — disse ela, com um sorriso fino. — Cidade pequena, você sabe como é.
Miguel sustentou o olhar dela de um jeito que a incomodou.
— Sei. Mas nem tudo que corre pela cidade nasce da cidade.
Alzira sentiu um arrepio leve.
— Não entendi.
— Vai entender.
Ele voltou a olhar para a feira e foi comer um pastel, encerrando a conversa sem esforço. Alzira ficou parada por um segundo, ferida no orgulho. Depois saiu com passos duros, mas tentando manter a dignidade.
Naquela noite, o caos ganhou outra forma.
Ela estava no corredor, apagando as luzes, quando viu sua conta no banco ser bloqueada. Dessa vez, não foi impressão. Seu mundinho estava caindo.
Alzira não estava mais no controle.
Seu corpo inteiro congelou.
Piscou. E tentou voltar ao normal.
Ela deu um passo para trás, sentindo o coração bater no pescoço. As mãos começaram a tremer.
Quis dizer em voz alta que estava cansada, que era nervoso, que devia procurar um médico. Mas nenhuma dessas desculpas parecia suficiente.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, Alzira sentiu medo de verdade.
E o medo tinha o gosto exato daquilo que ela passara a vida causando nos outros sem nunca admitir.
Em breve capitulo 4
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