O Eco do Abismo - Capítulo 2: A Falsa Bondade

O Eco do Abismo - Capítulo 2: A Falsa Bondade


No capítulo anterior: Em Vale Seco, Alzira Monteiro vive de aparências, espalhando fofocas e manipulando histórias. Apesar de parecer gentil, há algo nela que incomoda quem a conhece de verdade.
Ao se deparar com Miguel Duarte, um homem reservado e impossível de decifrar, ela decide torná-lo seu próximo alvo.
Sem perceber, esse é o primeiro passo para a própria queda. Leia o Capítulo 1 completo Aqui

Alzira tinha um talento especial: conseguia parecer inocente até quando estava sendo podre.

O Eco do Abismo - Capítulo 2: A Falsa Bondade

O Eco do Abismo - Capítulo 2: A Falsa Bondade


Na manhã seguinte, foi até a padaria do seu  Sabao, onde sabia que sempre encontraria alguém disposto a ouvir “sem querer” uma história mal contada. Entrou sorrindo, elogiou os salgados, perguntou dos funcionários e, entre um comentário e outro, mencionou Miguel.

— Aquele homem tem um jeito tão fechado. A gente fica até sem saber o que pensar. E eu ouvi umas coisas…

Seu Sabao levantou a cabeça, curioso.

— Coisas como?

Alzira abaixou os olhos, teatral.

— Ah, não gosto nem de repetir. Mas dizem que onde ele passa, coisa boa não acompanha.

Não era nada. Era uma frase vaga, sem prova, sem origem, sem sentido definido. Mas era assim que começava. Alzira nunca inventava a história completa; ela soltava a isca e deixava o resto nas mãos da imaginação alheia.

Horas depois, na Lojas 50 a 89, ela comentou que Miguel tinha um jeito “misterioso demais”. Na Farma Do Conde, disse que homem muito calado escondia demais. Na falsidade, lamentou “não querer julgar, mas já julgando”. Em alguns dias, o nome de Miguel já circulava, o que ela não esperava era que Miguel iria descobrir.

E Alzira se sentia viva assim.

À tarde, recebeu Dolena, uma cabeleireira que alternava entre amizade e desconfiança. Alzira serviu salgados, colocou café fresco e sentou-se com aquele ar de falsa amiga.

— Você sabe que eu só quero o bem das pessoas — disse. — Mas tem gente que entra na vida da cidade e a gente precisa abrir o olho.

Alzira deu um sorriso enviesado.

Dolena a conhecia havia anos. Sabia exatamente o jogo que estava sendo jogado. Mesmo assim, como quase todos em Vale Seco, às vezes acabava entrando nele. A conversa seguiu com comentários atravessados sobre outras pessoas também. 

Nada lhe escapava. E o que escapava, ela completava com imaginação.

Por fora, parecia cordialidade. Por dentro, era uma pessoa podre e amarga.

Quando Dolena foi embora, o sol já caía. Alzira caminhava para fechar a porta para ir embora. Ao olhar rapidamente para o espelho do corredor, teve a impressão de que seu reflexo demorou um segundo a acompanhá-la.

Ela parou.

Voltou dois passos.

Olhou de novo.

Estava tudo normal.

Alzira franziu a testa, soltou um riso seco e seguiu.

— Impressão minha.

Mas naquela noite, deitada na cama, coisas estranhas começaram a acontecer. Como se alguém tivesse observando seus passos.

Ela se levantou irritada e acendeu as luzes.

Voltou para o quarto com uma sensação de irritação.

Pouco antes de dormir, verificou o celular e virou de lado.

Mas o sono, naquela noite, não foi por inteiro.

Em breve: Capítulo 3

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