O sonho de quem saiu pela porta errada

Tudo começa de forma absolutamente comum.

O sonho de quem saiu pela porta errada


Um shopping movimentado, luzes acesas, vozes misturadas, passos apressados ecoando pelo corredor e o som distante das lojas abertas. Entre vitrines iluminadas e o vai e vem das pessoas, há uma breve parada diante da praça de alimentação para pedir japa. O ambiente transmite aquela sensação de normalidade quase automática, como se fosse apenas mais um dia qualquer.

Em meio à cena, surgem rostos familiares, pessoas que parecem pertencer naturalmente àquele espaço, como se sempre estivessem ali. A conversa é leve, o clima é tranquilo, e por alguns instantes tudo parece seguir a lógica do cotidiano.

Mas os sonhos raramente respeitam a lógica.

Sem qualquer aviso, o cenário muda.

O chão liso do shopping desaparece e dá lugar ao piso áspero de uma quadra de futebol. O som das conversas some, substituído por um silêncio estranho, interrompido apenas pela voz de um professor que surge do nada. Ele se aproxima com naturalidade e faz uma pergunta inesperada: se a pessoa é boa em matemática.

Antes mesmo que qualquer resposta seja pensada, ele comenta sobre um trabalho envolvendo contas, algo que seria “ideal”.

E então tudo muda outra vez.

A quadra se dissolve como fumaça, dando lugar a uma sala de reunião dentro de uma escola. Há várias pessoas sentadas, algumas conversando em voz baixa, outras apenas observando. O ambiente tem aquele ar sério e pesado de encontros importantes, mas sem que se saiba exatamente o motivo.

É nesse momento que entra um senhor que já não faz mais parte do mundo dos vivos.

Ele entra calmamente, puxa uma cadeira e se senta como se nada fosse incomum. O mais estranho é que ninguém reage. Ninguém demonstra surpresa. A presença dele é tratada como algo absolutamente normal.

A sensação é de estranhamento, mas o sonho não permite tempo para questionamentos.

Em seguida, surge apenas a imagem de uma porta.

Uma porta simples, silenciosa, imóvel.

Não há explicação, apenas a impressão de que aquela imagem representa uma saída, uma despedida ou talvez uma escolha feita sem perceber.

Logo depois, o cenário retorna ao shopping.

Mas não é o shopping atual.

É a versão antiga, anterior à reforma, carregada de memórias e uma nostalgia difícil de explicar. Os corredores parecem mais estreitos, as lojas diferentes, as luzes mais amareladas, como se o tempo tivesse voltado.

Enquanto uma prima observa vitrines e produtos, surge a decisão de seguir até o supermercado, saindo pela porta que dá direto para a rua.

É nesse instante que o sonho começa a mudar de tom.

Ao tentar retornar, o supermercado já está fechando.

As portas estão quase cerradas, e o segurança, parado na entrada, impede a passagem.

Do outro lado do shopping, há pessoas aguardando para ir embora, e é preciso encontrá-las. Surge então a orientação de seguir por uma rua do centro, um atalho que, supostamente, levaria até a outra entrada.

A princípio, parece simples.

Mas a rua não leva a lugar algum.

Cada passo parece afastar ainda mais do destino.

Ao tentar voltar, tudo já está diferente.

O caminho desapareceu.

No lugar, há uma obra enorme, ocupando a rua inteira. Tapumes altos, concreto, ferragens, poeira no ar. Não existe passagem nem para seguir em frente, nem para retornar.

A única opção é continuar andando.

A cada esquina, a sensação de desorientação aumenta.

As ruas tornam-se estreitas, desorganizadas, quase labirínticas. Casas amontoadas, fios cruzando o céu, becos que surgem e desaparecem.

Em meio a esse caos urbano, aparece algo completamente fora de contexto: a entrada do Beto Carrero World.

A visão surge como algo surreal, deslocado da realidade, mas ao mesmo tempo aceita pelo sonho como se fizesse parte daquele lugar.

O celular então se torna a única esperança.

Ao pegá-lo, a tela mostra apenas 1% de bateria.

Os dedos tremem ao tentar abrir o Waze.

O nome do destino é digitado errado uma vez.

Depois outra.

Apaga.

Reescreve.

Erra novamente.

A urgência cresce junto com a sensação de estar completamente perdido.

Antes que a bateria acabe, é feita uma ligação rápida apenas para avisar que houve um desencontro e que o aparelho está prestes a desligar.

Quando finalmente o destino é inserido corretamente, a rota aparece.

E a distância é assustadora.

Muito maior do que parecia possível.

O ponto de chegada está longe demais.

Longe a ponto de parecer inalcançável.

Enquanto o caminho continua, surge uma ligação inesperada de uma antiga colega de escola, alguém que pertence a um passado distante. A voz é reconhecida imediatamente, mas as palavras parecem escapar, como se a conversa acontecesse em outra camada do sonho.

Ao redor, as pessoas observam.

Algumas riem.

Outras apenas encaram.

A sensação de julgamento acompanha cada passo.

E então vem a parte mais pesada.

Uma mensagem chega no WhatsApp.

O remetente é alguém que já partiu.

Na tela, aparece a imagem de um desenho do L, enviado como lembrança de algo que um dia teve significado.

Junto da imagem, apenas uma frase:

não houve despedida.

A mensagem carrega um peso que vai além do sonho.

Ela traz a sensação de algo interrompido, de palavras não ditas, de uma ajuda que talvez tenha chegado tarde demais.

É como se todo o labirinto, todas as ruas erradas, todos os bloqueios e desvios levassem exatamente a esse sentimento.

O de ter saído pela porta errada.

O de ter escolhido um caminho sem volta.

E, acima de tudo, o de permanecer perdido mesmo depois de acordar.

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