O Eco do Abismo: Capítulo 10 – Uma Ótima Colheita

No capítulo anterior: Na quarta-feira, Alzira saiu de casa já no limite, tomada pelo cansaço, pela raiva e pela sensação de que tudo estava fugindo do controle. Ao ver Miguel na loja da Migs, preferiu ignorá-lo, mas a paranoia e o ódio só aumentaram. Na papelaria, perdeu a paciência ao exigir atendimento imediato, acabou humilhada diante das pessoas na fila e saiu furiosa, sentindo-se observada por todos. Do lado de fora, ao encarar o reflexo no vidro da casa de apostas, teve a impressão de que Miguel ainda a observava, reforçando a certeza de que algo pior estava prestes a acontecer — e, naquela mesma manhã, uma notificação já seguia a caminho.

O Eco do Abismo: Capítulo 10 – Uma Ótima Colheita


Capítulo 10 – A Colheita

O sábado amanheceu silencioso em Vale Seco.

Silencioso demais.

Nem o movimento costumeiro do comércio parecia ter a mesma força daquela manhã. 

Na Rua do Comércio, a loja de Alzira Monteiro estava fechada.

A porta de aço abaixada.

As luzes apagadas.

Nenhum sinal de movimento.

E aquilo, por si só, já chamava atenção.

Porque Alzira deveria estar trabalhando.

Na verdade…

mais do que nunca.

Ela sabia que precisava abrir.

Precisava vender.

Precisava levantar dinheiro.

Nos últimos dias, a sensação de que algo grande estava prestes a acontecer não saía de sua cabeça.

Mesmo sem ter certeza de nada, Alzira já desconfiava.

Mais cedo ou mais tarde…

teria de pagar.

Talvez não com culpa.

Porque culpa nunca foi algo que realmente a movesse.

Mas com dinheiro. 

E isso, para ela, doía ainda mais.

Sentada sozinha na sala escura de casa, com as cortinas fechadas e a televisão ligada sem som, Alzira fazia contas em folhas soltas espalhadas pela mesa.

Erros Gravíssimos de Português.

Números.

Valores.

Possíveis prejuízos.

Nomes.

Pessoas que talvez, em breve, pudessem exigir reparação por tudo que ela havia tentado fazer.

Gente que tentou passar para trás.

Gente que difamou.

Gente que prejudicou.

Ela não pensava em arrependimento.

Não pensava no mal causado.

Não pensava na dor dos outros.

Alzira Monteiro continuava sendo quem sempre foi.

Uma mulher de má índole.

Falsa.

Egoísta.

Capaz de pensar apenas em si mesma.

— Isso não pode acontecer comigo… — murmurou, apertando a caneta entre os dedos.

Mas, no fundo…

sabia.

Sua ótima colheita estava prestes a chegar.

Tudo o que plantou durante anos começava a amadurecer.

As mentiras.

As fofocas.

As manipulações.

As irregularidades.

As pessoas que tentou enganar.

As vidas que atravessou.

Tudo voltava.

Não de uma vez.

Mas como uma safra silenciosa.

Inevitável.

Do lado de fora, a cidade seguia.

Alguns vizinhos que passaram em frente à loja estranharam.

— Fechada num sábado?

— Agora ela tá sumida mesmo…

— Tá sentindo o peso.

As vozes da rua atravessavam a janela fechada.

Baixas.

Mas audíveis.

Alzira ouviu.

Cada palavra.

E apertou ainda mais a caneta.

“Toda colheita chega no tempo certo.”

As mãos de Alzira começaram a tremer.

O coração disparou.

Ela olhou ao redor da sala.

Silêncio.

Nenhum sinal de ninguém.

Mas, pela primeira vez…

não era só medo.

Era certeza.

Algo estava vindo.

E dessa vez…

não havia como impedir.

Na terça-feira, Vale Seco despertaria com uma notícia que mudaria tudo.

Em breve capitulo 11

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