No capítulo anterior: Na manhã abafada de segunda-feira, Miguel encontrou Lu da Película 9D logo abaixo do Clube do Sabão e revelou que a queda de Alzira já havia se espalhado por toda Vale Seco. Entre comentários sobre as mentiras e irregularidades vindo à tona, ele contou que Alzira, Célio e Adalberto haviam sido cadastrados como mesários nas eleições de 2026, sem ainda saberem. Enquanto a cidade despertava e a porta da loja de Alzira se erguia lentamente, ficou claro que o eco de sua ruína já tomava conta de toda a cidade — e que a pior notícia ainda estava por chegar.
Capítulo 9 – A Manhã da Fúria
A quarta-feira amanheceu abafada em Vale Seco.
O céu estava pesado, carregado por nuvens cinzentas que deixavam a cidade com um aspecto ainda mais sufocante.
Alzira Monteiro saiu de casa cedo.
O rosto carregava sinais claros das últimas noites mal dormidas. As olheiras já não podiam mais ser disfarçadas, e a expressão dura deixava evidente o estado em que se encontrava.
Ela sabia.
Sua batata já estava assando.
As conversas na cidade haviam aumentado. Os olhares nas ruas tinham mudado. E o pior de tudo era a sensação de que algo ainda maior estava prestes a acontecer.
Com sua motinha, seguiu em direção a sua loja.
Ao passar perto da casa de apostas, avistou a pequena loja da Migs.
Foi ali que o viu.
Miguel Duarte.
Ele estava parado próximo ao balcão, conversando calmamente com Migs.
Por um breve segundo, Alzira diminuiu o passo.
O sangue pareceu subir.
Sentiu um calor seco no rosto.
O ódio.
A raiva.
O medo.
Tudo misturado.
Mas dessa vez…
ela não falou nada.
Não olhou diretamente para Miguel.
Não cumprimentou a Migs.
Apenas virou o rosto e seguiu em frente.
Ignorou os dois completamente.
Por dentro, porém, estava furiosa.
Ela tinha certeza, mas não tinha como provar que Miguel estava por trás de boa parte do caos que vinha tomando sua vida.
E isso a consumia.
Logo ao lado da casa de apostas ficava a pequena papelaria, onde Alzira entrou com passos apressados.
Precisava comprar alguns materiais.
Ou pelo menos era isso que dizia para si mesma.
Na verdade, estava inquieta demais para ficar parada.
A loja estava cheia.
Uma fila pequena se formava no balcão.
Alzira respirou fundo, impaciente.
Bateu a bolsa no balcão com mais força do que o necessário.
— Moça, eu preciso ser atendida rápido, estou com pressa, estou sozinha.
A atendente, uma jovem com expressão descontente com a situação, levantou os olhos.
— Senhora, tem pessoas na frente. Assim que terminar, eu atendo a senhora.
Alzira apertou os lábios.
— Você não está entendendo. Eu tenho urgência.
A moça manteve a calma.
— E todos aqui também estão aguardando. Precisa esperar sua vez.
A resposta foi como gasolina no fogo.
O rosto de Alzira endureceu.
Algumas pessoas da fila viraram discretamente para olhar.
Ela percebeu.
E isso a irritou ainda mais.
— Resmungou e saiu
A atendente não respondeu.
Apenas voltou a atender o cliente da frente.
Aquilo foi a gota.
O som ecoou pela calçada.
Do lado de fora, o ar parecia ainda mais pesado.
Ela respirava rápido.
As mãos tremiam.
A sensação de que todos estavam observando era insuportável.
Ao levantar os olhos, viu o reflexo no vidro escuro da casa de apostas.
Por um segundo…
teve a impressão de que alguém estava atrás dela.
Virou-se imediatamente.
Ninguém.
Mas no vidro…
o reflexo de Miguel ainda parecia estar ali.
Parado.
Imóvel.
Observando.
Alzira sentiu um arrepio correr pela espinha.
Acelerou o passo e foi embora.
Cada vez mais furiosa.
Cada vez mais acuada.
Cada vez mais certa de que o pior ainda estava por vir.
E naquela mesma manhã…uma notificação já estava sendo preparada.
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O Eco do Abismo
