No começo…
Parecia normal.
As conversas fluíam cada vez melhor.
Mais leves.
Mais naturais.
Mais… íntimas.
— “Você gosta de filme de terror?” — ele perguntou uma noite.
— “Gosto kkk mas fico com medo depois”
— “Medo do quê?”
— “Sei lá… de alguém me observando 😅”
Ele demorou alguns segundos.
— “Engraçado…”
— “Você gosta de histórias assim”
— “Mas não gosta quando parece real”
Anna riu.
Ou tentou.
— “Claro né kkk ninguém gosta disso de verdade”
Mas algo naquela resposta…
Ficou.
Nos dias seguintes, o assunto virou rotina.
Filmes.
Séries.
Histórias.
Eles comentavam tudo — desde clássicos até coisas mais recentes, incluindo You, que sempre acabava voltando para a conversa.
— “Você acha que alguém como ele existiria de verdade?” — Anna perguntou.
Ele respondeu rápido demais.
— “Já existem.”
Silêncio.
— “Ah para kkkk”
— “Você tá viajando”
— “Não tô.”
— “Você só não percebe.”
Anna mudou de assunto.
Mas o clima… não voltou ao normal.
Naquela mesma noite, já mais tarde, a conversa continuou.
Mais lenta.
Mais silenciosa.
— “Você trabalha amanhã?” — ele perguntou.
Anna respondeu sem pensar.
— “Trabalho sim”
— “Por quê?”
Demorou.
Mais do que o normal.
— “Nada”
— “Só pensei…”
— “Você deve sair cedo”
Anna franziu a testa.
— “Depende”
— “Mas geralmente sim”
Mais alguns segundos.
— “Faz sentido”
Ela travou.
— “Como assim ‘faz sentido’?”
A resposta veio.
Simples.
Fria.
— “Porque você sempre fica online até umas 23h30”
— “E some cedo de manhã”
O coração dela acelerou.
— “Tá… e daí?”
— “Daí que você acorda cedo”
— “Pra trabalhar”
Aquilo não era uma suposição.
Era uma afirmação.
Anna ficou em silêncio.
O dedo parado sobre o teclado.
— “Você observa demais” — ela digitou.
Tentando manter o tom leve.
— “Eu presto atenção”
A resposta veio sem hesitar.
E então…
Veio o próximo passo.
— “Tipo agora”
Anna sentiu o corpo ficar tenso.
— “Agora o quê?”
A mensagem demorou.
Mas quando chegou…
Não parecia mais uma conversa.
— “Agora você tá no seu quarto”
— “Luz apagada”
— “Só com o celular na mão”
O ar sumiu por um segundo.
Anna olhou ao redor.
Instintivamente.
Como se alguém pudesse estar ali.
— “Para…” — ela digitou.
— “Não é engraçado”
— “Eu não tô brincando”
O coração dela agora batia mais rápido.
Mais alto.
— “Como você sabe disso?”
Silêncio.
Longo.
Pesado.
O “digitando…” apareceu.
Sumiu.
Voltou.
E então…
— “Porque eu sei onde você mora”
Tudo parou.
Anna ficou olhando a tela.
Sem piscar.
Sem respirar direito.
— “Para com isso agora”
— “Sério”
A resposta veio.
Calma.
Quase gentil.
— “Relaxa”
— “Eu só quis provar um ponto”
Mas não havia nada de calmo naquilo.
— “Que ponto??”
— “Que você não sabe quem tá te observando”
O celular parecia pesado demais agora.
— “Isso não tem graça nenhuma”
— “Eu sei”
Mais alguns segundos.
— “Você trabalha naquele lugar perto da avenida, né?”
O mundo de Anna encolheu.
Ela não respondeu.
Não conseguiu.
Porque, naquele momento…
Ela entendeu.
Aquilo não era coincidência.
Não era suposição.
Não era “boa observação”.
Era outra coisa.
Algo muito pior.
— “Como você sabe disso…” — ela finalmente digitou.
As mãos tremendo levemente.
A resposta veio.
Sem pressa.
— “Eu te disse…”
— “Eu presto atenção”
O silêncio depois disso foi insuportável.
Anna travou o celular.
Destravou.
Abriu a conversa de novo.
Como se aquilo fosse desaparecer.
Mas não desapareceu.
Porque era real.
Mais real do que qualquer coisa até agora.
E, pela primeira vez…
O medo não era mais uma sensação vaga.
Era concreto.
Era direto.
Era pessoal.
A notificação apareceu novamente.
— “Fica tranquila”
— “Eu não vou fazer nada com você”
E então…
A última mensagem da noite:
— “Eu só quero ficar perto”
Anna largou o celular na cama.
O coração acelerado.
A respiração irregular.
Os olhos indo automaticamente para a janela.
Escuro.
Silencioso.
Normal.
Mas não parecia normal.
Porque agora…
Ela sabia.
Ele não estava só na conversa.
Ele estava…
Muito mais perto do que deveria.
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Eu Sempre Estive Aqui