Eu Sempre Estive Aqui – Capítulo 10: Reviravoltas e Descobertas

Anna nunca chegou a gostar daquele novo grupo.

Desde os primeiros dias, havia alguma coisa naquela dinâmica que a incomodava.

As conversas pareciam artificiais, algumas pessoas falavam pelas costas umas das outras e aquela mulher que havia tentado manipular os integrantes continuava aparecendo sempre que surgia alguma discussão.

Anna observava tudo em silêncio.

Até que, certa noite, resolveu falar com ele.

— Eu não gosto dessas pessoas.

Ele perguntou:

— Por quê?

— Não sei explicar. Só não me sinto confortável lá. Parece que todo mundo está sempre escondendo alguma coisa.

Era simples.

E, naquele momento, ela ainda não fazia ideia de que aquela conversa seria apenas o começo de uma mudança muito maior.

A discussão

Alguns dias depois, uma discussão começou no grupo.

Tudo começou com uma mensagem aparentemente inocente.

Depois vieram respostas.

Uma pessoa interpretou mal o que outra havia dito.

Outra entrou na conversa.

A mulher que Anna já não suportava aproveitou a oportunidade para colocar mais lenha na fogueira.

Anna tentou esclarecer.

Mas ninguém parecia realmente interessado em resolver.

Quanto mais ela explicava, mais a conversa se transformava em uma confusão.

Até que, cansada, Anna escreveu:

— Eu não vou continuar discutindo isso.

A resposta veio imediatamente.

E foi justamente aí que Anna perdeu a paciência.

Ela ficou alguns segundos olhando para a tela.

Aquilo foi suficiente.

— Tudo bem.

E saiu.

Sem aviso.

Sem despedida.

Sem explicar mais nada.

O grupo desapareceu da tela.

Anna respirou fundo e largou o celular sobre a cama.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu alívio.

Pouco depois, recebeu uma mensagem dele.

— Você saiu?

— Saí.

— Por quê?

— Porque eu não quero mais ficar naquele lugar.

Ele não discutiu.

Pelo menos não naquele momento.

— Entendo.

Anna pensou que aquela história havia terminado ali.

Mas não terminou.

O novo grupo

Alguns dias depois, Anna recebeu um convite para outro grupo.

Era diferente.

Pessoas novas.

Conversas novas.

Um ambiente aparentemente mais tranquilo.

Ela entrou sem pensar muito.

O que Anna não sabia era que sua saída do grupo anterior não significava que ela havia desaparecido completamente daquele círculo.

Havia outras formas de acompanhar o que acontecia.

Ele possuía um WhatsApp ligado à empresa e, por circunstâncias que Anna desconhecia, aquele número também estava presente no novo grupo.

Não era o perfil pessoal dele.

Era um número que ela não associava imediatamente a ele.

E foi por aquele canal que ele continuou acompanhando as conversas.

Sem interferir.

Sem chamar atenção.

Apenas observando.

Cada nova conversa.

Cada mudança de humor.

Cada pessoa com quem Anna começava a conversar.

Ele sabia quando ela aparecia no grupo.

Quando ficava algumas horas sem responder.

Quando participava de uma conversa.

E quando simplesmente desaparecia.

Anna não fazia ideia.

Para ela, aquele novo grupo era apenas um recomeço.

Mas ele continuava acompanhando sua rotina de uma distância que ela ainda não compreendia.

A amiga

Havia ainda outra coisa.

Uma pessoa que Anna jamais imaginaria estar envolvida naquela história.

Uma amiga dela.

Ele havia conseguido manter contato com ela.

No começo, eram conversas ocasionais.

Perguntas aparentemente inocentes.

Como Anna estava.

Se havia acontecido alguma coisa.

Se ela estava trabalhando muito.

Nada parecia importante.

Mas, aos poucos, informações foram surgindo.

E ele começou a montar uma espécie de rotina mental de Anna.

Não porque ela tivesse contado tudo diretamente a ele.

Mas porque pequenas informações, quando reunidas, formavam um padrão.

Ele descobriu o horário aproximado em que Anna trabalhava.

Descobriu quando normalmente saía.

Quanto tempo costumava levar para voltar.

E, depois de algum tempo, sabia até aproximadamente quando ela deveria estar chegando em casa.

Anna continuava vivendo sua vida normalmente.

Enquanto isso, do outro lado do Brasil, alguém já conhecia partes da rotina dela que ela nunca havia contado diretamente.

“Você está demorando”

Foi numa noite aparentemente comum que Anna percebeu que alguma coisa estava diferente.

Ela havia saído do trabalho mais ou menos no horário habitual.

Pegou o caminho de sempre.

Como acontecia praticamente todos os dias, demoraria um determinado período até chegar em casa.

O celular estava no bolso.

Ela não pretendia conversar com ninguém naquele momento.

Quando finalmente chegou, viu algumas mensagens dele.

A primeira era normal.

A segunda também.

Mas a terceira fez Anna parar.

— Você ainda não chegou?

Ela franziu a testa.

Olhou para o relógio.

Depois voltou para a mensagem.

— Como você sabe que eu ainda não cheguei?

A resposta demorou.

— Você costuma chegar esse horário.

Anna ficou olhando para a tela.

Não era exatamente uma resposta.

— Eu nunca te falei exatamente que horas chego.

Ele respondeu:

— Você já comentou algumas vezes.

Anna pensou.

Talvez tivesse mesmo.

Talvez em alguma conversa antiga tivesse mencionado o horário.

Mas havia algo naquela situação que não parecia tão simples.

Ele mandou outra mensagem:

— Você demorou hoje.

Anna sentiu um pequeno desconforto.

Não era medo.

Ainda não.

Era aquela sensação estranha de perceber que alguém estava prestando atenção demais.

Ela digitou.

Apagou.

Digitou novamente.

Até finalmente enviar:

— A pessoa que mora do outro lado do Brasil sabe até quanto tempo eu levo para chegar em minha casa.

Ele visualizou.

Dessa vez, demorou bastante para responder.

Anna ficou olhando para a tela.

A frase parecia ter mudado alguma coisa.

Porque, pela primeira vez, ela havia colocado em palavras aquilo que vinha começando a perceber.

Ele sabia demais.

Sabia sobre os grupos.

Sabia com quem ela conversava.

Sabia quando ela costumava sair.

Sabia aproximadamente quando chegava.

E agora estava questionando quando ela demorava para responder justamente depois daquele horário.

Finalmente, a resposta apareceu.

— Eu só presto atenção em você.

Anna leu uma vez.

Depois outra.

E deixou o celular sobre a mesa.

A frase poderia parecer carinhosa em qualquer outro contexto.

Mas naquele momento ela soou diferente.

Ela começou a pensar em todas as vezes que havia contado alguma coisa durante uma conversa casual.

Todos os horários mencionados.

Todas as histórias sobre o trabalho.

Cada comentário aparentemente insignificante.

Talvez ele tivesse simplesmente guardado tudo.

Talvez estivesse apenas preocupado.

Ou talvez houvesse muito mais acontecendo por trás das conversas do que ela imaginava.

Naquela noite, Anna entrou no novo grupo novamente.

Conversou normalmente.

Riu de algumas mensagens.

Respondeu outras.

Mas sua cabeça estava longe dali.

Porque agora ela sabia de uma coisa que nunca havia considerado antes:

ela podia mudar de grupo.

Podia deixar pessoas para trás.

Podia começar novas conversas.

Mas isso não significava necessariamente que deixaria de ser observada.

E, pela primeira vez, Anna começou a se perguntar onde terminava o carinho dele…

e onde começava a necessidade de controlar tudo ao redor dela.

Ela ainda não tinha uma resposta.

Mas sabia que precisava descobrir.

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