Eu Sempre Estive Aqui – Capítulo 9: Um Caso Curioso

O que Anna não sabia era que, por mais que ele demonstrasse confiar nela, havia uma coisa que jamais deixaria completamente nas mãos de outra pessoa.

Depois da noite em que mostrou toda a automação da casa por chamadas e mensagens no WhatsApp, ele resolveu dar um passo além.

Em uma tarde qualquer, uma notificação apareceu no celular de Anna.

Era um convite para acessar o sistema da casa.

Ela demorou alguns segundos para acreditar.

— Você está falando sério?

A resposta veio quase instantaneamente.

— Sim. Aceita.

Já em sua casa.

Pelo mapa da casa era possível visualizar praticamente tudo.

As luzes.

As persianas.

O ar-condicionado.

Os sensores.

As câmeras externas e internas autorizadas para compartilhamento.

Até algumas fechaduras inteligentes apareciam na tela.

Ela passou vários minutos vendo cada função.

— Você realmente vai dar acesso a tudo isso?

Ele respondeu com um áudio.

— Quero que você conheça a casa antes mesmo de colocar os pés aqui.

Anna sorriu.

Era estranho.

Ela nunca havia visitado aquela cidade.

Nunca tinha entrado naquela casa.

Mesmo assim, já sabia onde ficava a cozinha, a sala, o escritório e até o jardim, apenas pelas câmeras e pelos comandos que ele lhe mostrava todos os dias.

As conversas sobre tecnologia passaram a fazer parte da rotina.

Quase todas as noites ele descobria alguma função nova para mostrar.

Às vezes ligava as luzes da sala apenas para perguntar qual cor ela preferia.

Outras vezes mudava a intensidade da iluminação para mostrar como a casa ficava diferente.

Ela ria da empolgação dele.

Parecia uma criança apresentando seu brinquedo favorito.

Mas havia uma coisa que Anna desconhecia.

Enquanto entregava aquele acesso, ele também preparava silenciosamente um plano para o futuro.

Havia muito tempo imaginava o dia em que finalmente a convidaria para conhecer sua cidade.

Falava sobre as ruas onde cresceu.

Sobre a praça onde costumava caminhar.

Sobre um café que dizia servir o melhor cappuccino da região.

E sempre terminava dizendo:

— Um dia ainda vou te mostrar tudo isso pessoalmente.

Anna respondia rindo.

— Quem sabe…

Sem que ela soubesse, ele resolveu se preparar para esse dia.

Criou uma rotina exclusiva no sistema da casa.

Quando Anna finalmente fosse visitá-lo, ela teria acesso a praticamente toda a automação.

Poderia controlar as luzes.

As persianas.

A climatização.

E diversos outros comandos.

Mas existia uma exceção.

As portas principais.

Essas jamais obedeceriam aos comandos enviados pelo celular dela.

Mesmo aparecendo no aplicativo, permaneceriam bloqueadas para qualquer abertura externa.

Somente ele teria autorização para destravá-las.

Era uma configuração escondida entre dezenas de outras.

Um detalhe que ele nunca comentou.

Não porque esperasse usá-la.

Mas porque gostava de deixar tudo planejado antes que qualquer coisa acontecesse.

Enquanto isso, Anna sequer imaginava que ele já pensava naquela visita como algo que inevitavelmente aconteceria um dia.

Alguns dias depois, surgiu um convite para entrar em um novo grupo.

Os dois aceitaram.

O ambiente parecia tranquilo.

As conversas eram leves.

As pessoas pareciam receptivas.

Durante os primeiros dias, tudo correu normalmente.

Até que uma nova integrante começou a chamar atenção.

Era simpática com todos.

Sempre aparecia oferecendo ajuda.

Fazia elogios.

Participava das conversas.

Mas havia algo em seu jeito que incomodava.

Ela nunca dizia exatamente o que pensava diante de todos.

Preferia as conversas particulares.

Mandava mensagens privadas.

Levava comentários de uma pessoa para outra.

Mudava pequenas partes das histórias.

Plantava dúvidas discretamente.

Quando alguém começava a desconfiar de outra pessoa, ela desaparecia da conversa.

Como se nunca tivesse participado de nada.

Anna demorou alguns dias para perceber aquele comportamento.

Ele, porém, observava tudo em silêncio.

Certa noite, enviou algumas capturas de tela para Anna.

Mensagens diferentes.

Conversas com pessoas diferentes.

A mesma história contada de maneiras completamente opostas.

Anna leu tudo atentamente.

Quanto mais comparava as mensagens, mais percebia um padrão.

A mulher dizia a cada pessoa exatamente aquilo que ela queria ouvir.

Criava pequenas rivalidades.

Incentivava desconfianças.

Tentava colocar amigos uns contra os outros.

Era uma manipuladora.

Uma verdadeira cobra escondida atrás de um sorriso.

— Ela está fazendo isso de propósito… — escreveu Anna.

— Está — respondeu ele. — E acha que ninguém percebeu.

Nos dias seguintes, a mulher tentou repetir a estratégia várias vezes.

Insinuou mentiras.

Criou interpretações distorcidas.

Tentou fazer com que Anna desconfiasse dele.

E também tentou fazer com que outras pessoas desconfiassem de Anna.

Mas algo era diferente daquela vez.

Depois de tudo o que havia vivido com os rumores do passado, Anna decidiu que nunca mais acreditaria em acusações sem provas.

Sempre perguntava.

Sempre procurava ouvir os dois lados.

E isso fez toda a diferença.

Pouco a pouco, as tentativas de manipulação começaram a fracassar.

As histórias deixavam de fazer sentido.

As contradições apareciam.

As pessoas passaram a perceber que havia alguém tentando mover as peças do tabuleiro escondida nas sombras.

No fim, a mulher não conseguiu dividir o grupo.

Nem afastar Anna das pessoas que havia conhecido.

Pela primeira vez, sua estratégia falhou completamente.

E ela descobriu que manipular pessoas era muito mais difícil quando todos estavam dispostos a buscar a verdade antes de acreditar em qualquer boato.

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