Uma Refeição Indigesta

Era uma manhã aparentemente tranquila quando o cliente mais fiel daquela loja de chocolates resolveu fazer aquilo que já fazia há muito tempo: passar na franquia de costume para saborear alguma coisa.

Ele conhecia o lugar de cor.

Conhecia os funcionários, sabia onde ficavam os chocolates preferidos, já tinha suas escolhas praticamente decoradas e, principalmente, sabia que ali poderia encontrar um pequeno momento de paz no meio da correria do dia.

Naquela manhã, porém, ele estava disposto a experimentar algo diferente.

Depois de observar atentamente o cardápio, seus olhos pararam em uma opção que parecia ter sido criada especialmente para aquela ocasião:

Croissant de Pistache com Avelã e Frutas.

A combinação parecia perfeita.

A massa dourada e crocante, o recheio cremoso de pistache e avelã, acompanhado por frutas cuidadosamente colocadas no prato, formavam uma refeição que parecia mais uma obra de arte do que simplesmente um lanche.

— É esse — decidiu.

O pedido foi feito.

Poucos minutos depois, o croissant chegou à mesa.

O aroma era maravilhoso.

Ele deu a primeira mordida.

E, por alguns instantes, tudo parecia perfeito.

A crocância da massa combinava com o creme, o pistache trazia aquele sabor característico e as frutas davam um toque refrescante à combinação.

— Isso aqui está muito bom…

Era exatamente o que ele esperava.

A segunda mordida veio acompanhada de um sorriso.

A terceira, de uma sensação ainda melhor.

Naquele momento, nada poderia estragar aquela refeição.

Ou pelo menos era o que ele imaginava.

Porque, alguns minutos depois, a porta do estabelecimento se abriu.

E foi aí que a história começou a tomar outro rumo.

A chegada inesperada

Um homem entrou na loja.

Era conhecido por algumas pessoas da região.

Por motivos que ninguém sabia explicar muito bem, ele havia recebido um apelido que já circulava entre os frequentadores:

Baiação.

O sujeito trabalhava recolhendo materiais recicláveis e, naquele dia, carregava consigo toda a atmosfera de uma longa jornada pelas ruas.

Assim que entrou, algo mudou.

Não foi o som.

Não foi a iluminação.

Não foi a música ambiente.

Foi o ar.

O ambiente ficou poluído com mau cheiro.

O cliente, que até então estava concentrado em seu croissant, interrompeu o movimento da mão.

Franziu a testa.

Olhou discretamente para os lados.

Alguma coisa estava diferente.

Os funcionários também perceberam.

Baiação caminhou tranquilamente pelo estabelecimento, aparentemente alheio ao impacto que sua presença estava causando.

O cliente tentou ignorar.

— Não é possível…

Ele respirou pela boca.

Voltou a olhar para o prato.

O croissant continuava impecável.

Pistache.

Avelã.

Frutas.

Tudo ali parecia perfeito.

Mas havia um problema.

O ambiente já não era o mesmo.

O duelo entre o croissant e o ambiente

O cliente tentou continuar comendo.

Pegou o croissant.

Mordeu.

Mas o prazer que sentira minutos antes simplesmente desaparecera.

A comida continuava gostosa.

O problema não estava nela.

O problema estava no ambiente.

Ele olhou para o prato e pensou:

“Como uma refeição tão boa conseguiu ficar tão difícil de terminar?”

Baiação, enquanto isso, caminhava pela loja como se estivesse fazendo absolutamente nada de errado.

Parou perto de uma mesa.

Depois foi até outra área.

Conversou rapidamente com alguém.

E o cheiro parecia acompanhar seus passos como uma espécie de sombra invisível.

O cliente tentou manter a compostura.

Era um cliente fiel.

Não queria causar confusão.

Não queria reclamar.

Muito menos queria criar uma situação desagradável.

Então decidiu adotar a estratégia mais simples:

respirar o mínimo possível.

Pegou um pedaço de fruta.

Comeu rapidamente.

Depois tomou um gole de bebida.

Esperou.

Mais um pouco.

Até que percebeu que aquela refeição, que começara como um momento de prazer, estava se transformando em uma verdadeira batalha de resistência.

A situação tinha chegado a um ponto em que até mesmo o croissant parecia estar sendo injustamente acusado.

— A comida não tem culpa — pensou o cliente.

E realmente não tinha.

O croissant continuava delicioso.

O pistache estava perfeito.

A avelã combinava maravilhosamente com a massa.

As frutas estavam frescas.

Mas havia certas coisas que ninguém conseguia resolver.

Era como se houvesse uma regra misteriosa naquele estabelecimento:

onde Baiação fosse, o problema iria junto.

O cliente olhou para o teto.

Depois para o prato.

Depois para o chão.

— Isso só pode ser perseguição.

O momento decisivo

O último pedaço do croissant estava diante dele.

Era pequeno.

Mas representava uma grande decisão.

Comer ou desistir?

O cliente ficou alguns segundos encarando aquela última porção.

Pensou em todo o dinheiro investido.

Pensou no sabor maravilhoso das primeiras mordidas.

Pensou na expectativa que tinha antes de entrar na loja.

E então decidiu:

— Eu vou terminar.

Com determinação, pegou o último pedaço.

Levou à boca.

Mastigou.

E terminou.

Vitória.

Uma vitória sofrida, mas vitória.

Ele colocou o guardanapo sobre o prato vazio e respirou aliviado.

A refeição havia terminado.

Mas a experiência jamais seria esquecida.

A saída

Depois de alguns minutos, o cliente levantou-se.

Passou pelo caixa, cumprimentou os funcionários e caminhou em direção à porta.

Respirou profundamente o ar da rua.

E naquele instante percebeu uma coisa:

o ar nunca havia parecido tão saboroso.

Caminhou alguns metros.

Parou.

Olhou para o estabelecimento.

E pensou:

“O croissant estava maravilhoso.”

Fez uma pausa.

“Mas essa foi, sem dúvida, a refeição mais indigesta que eu já tive.”

O retorno

Dias depois, o cliente voltou à mesma franquia.

A experiência anterior ainda estava fresca em sua memória.

Entrou cuidadosamente.

Olhou para os lados.

Nenhum sinal de Baiação.

Respirou.

Tudo normal.

A música estava tocando.

Os funcionários estavam trabalhando.

O cheiro dos chocolates preenchia o ambiente.

Ele sorriu.

— Hoje ninguém estraga meu lanche.

Sentou-se.

Abriu o cardápio.

E, depois de alguns segundos, fez sua escolha.

Um Fondue

Porque uma coisa precisava ficar clara:

o problema nunca havia sido o estabelecimento.

O problema havia sido a companhia inesperada.

E, naquela tarde, enquanto saboreava tranquilamente cada colher, o cliente chegou a uma conclusão que levaria para sempre:

Uma boa refeição pode até ser deliciosa.

Mas, quando o ambiente resolve colaborar contra você…

até o melhor croissant do mundo ou fondue pode acabar virando

Uma Refeição Indigesta.

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