No começo… foi só uma sensação.
Nada concreto.
Nada que Anna pudesse apontar e dizer “isso está errado”.
Mas algo estava.
As conversas com ele já não pareciam tão aleatórias.
Havia momentos em que ele dizia exatamente o que ela precisava ouvir. Outros em que parecia antecipar o que ela ia dizer. Pequenos detalhes que, isolados, não significavam nada…
Mas juntos…
Começavam a incomodar.
Foi numa noite comum que tudo mudou.
O grupo da série You estava mais parado do que o normal. Algumas mensagens soltas, poucas interações. Anna estava distraída, mexendo no celular sem muita atenção, quando a notificação apareceu.
Mensagem dele.
Ela abriu.
— “Posso te perguntar uma coisa?”
Simples.
Como sempre.
— “Pode ué” — ela respondeu.
Demorou alguns segundos.
E então veio.
— “Você tava no outro grupo, né?”
Anna franziu a testa.
O antigo grupo.
Ela não falava sobre aquilo.
Quase ninguém falava.
Era como se tivesse sido… apagado.
— “Tava sim” — ela respondeu.
— “Por quê?”
A resposta demorou.
Mais do que o normal.
E quando veio… não era mais uma conversa leve.
— “Eu também tava lá.”
O coração de Anna deu uma leve acelerada.
Aquilo… não fazia sentido.
Se ele estava lá, ela lembraria.
Ou pelo menos… deveria lembrar.
— “Sério? Não lembro de você…”
Demorou.
Dessa vez… demorou mais.
Como se ele estivesse escolhendo as palavras.
Ou decidindo até onde iria.
— “Você lembra da briga que teve por causa do João Português?”
Anna congelou por um segundo.
João.
Ela lembrava.
Todo mundo lembrava.
Mas não era algo que se comentava.
Não depois de tudo.
— “Lembro…”
— “Por quê?”
A resposta veio quase imediata.
Como se ele já estivesse esperando.
— “Porque eu tava lá quando começaram os prints.”
O ar pareceu mais pesado.
Anna sentiu algo estranho no peito.
Porque aquilo… não era algo que qualquer pessoa saberia daquele jeito.
Não com aquele detalhe.
— “Muita gente tava…” — ela respondeu, tentando manter o tom normal.
Mas ele continuou.
Como se não tivesse ouvido.
Ou como se não se importasse.
— “E da Bia?”
— “Você lembra o que falaram dela?”
Anna travou.
Bia.
Outro nome que não aparecia há semanas.
Outro assunto que ninguém tocava.
— “Lembro…” — ela digitou devagar.
— “Mas por que você tá falando disso?”
A resposta demorou.
Mas quando chegou…
Não parecia mais casual.
— “Porque você tava online quando começaram a acusar ela.”
— “Você ficou quieta por um tempo.”
— “Depois você mandou ‘isso tá estranho’.”
O celular pareceu pesar na mão de Anna.
Ela não respondeu na hora.
Porque aquilo…
Aquilo não era normal.
Ele não estava só lembrando.
Ele estava descrevendo.
Com precisão.
— “Como você sabe disso?” — ela perguntou.
A resposta veio.
Fria.
Simples.
— “Eu te disse.”
— “Eu tava lá.”
O quarto parecia mais silencioso agora.
Anna olhou ao redor, como se, por algum motivo, alguém pudesse estar observando.
— “Mas eu não lembro de você…” — ela insistiu.
E então…
Veio a mensagem que mudou tudo.
— “Você não precisava lembrar.”
Anna ficou olhando para a tela.
Sem digitar.
Sem se mover.
O indicador de “digitando…” apareceu.
Sumiu.
Voltou.
— “Eu não falava muito.”
— “Mas eu via tudo.”
Um arrepio subiu pela espinha dela.
Lento.
Frio.
Porque, naquele momento…
Uma coisa ficou clara.
Ele não estava tentando fazer ela lembrar.
Ele estava mostrando…
Que sempre esteve lá.
— “Você lembra daquele perfil sem foto?” — ele mandou.
— “Que aparecia só pra falar coisa estranha?”
Anna sentiu o estômago gelar.
Ela lembrava.
Todo mundo lembrava.
Mas ninguém nunca soube quem era.
Os dedos dela hesitaram sobre a tela.
— “Lembro…”
Demorou alguns segundos.
E então…
— “Então…”
— “Era eu.”
O mundo pareceu ficar em silêncio.
Anna não respondeu.
Não sabia o que responder.
Porque, de repente…
Tudo fazia sentido.
E, ao mesmo tempo…
Nada fazia.
Ele não era novo.
Nunca foi.
E o mais assustador…
Não era o fato dele estar no grupo antigo.
Era o fato de que…
Ele lembrava de coisas que nem ela lembrava mais.
E, mesmo assim…
Nunca tinha sido visto.
A notificação apareceu de novo.
— “Agora você lembra de mim?”
Anna olhou para a tela por um longo tempo.
O coração batendo mais forte do que deveria.
A mente tentando juntar peças que não encaixavam.
E, pela primeira vez…
Ela não quis responder.
Porque, no fundo…
Ela começou a entender.
Ela nunca esqueceu dele.
Ela só…
Nunca soube que ele estava lá.
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Eu Sempre Estive Aqui