No capítulo anterior… As mentiras de Alzira finalmente vieram à tona, revelando um padrão de manipulação que destruiu relações por toda Vale Seco. Ao mesmo tempo, uma sequência incontrolável de invasões começou a atingir não só suas contas, mas também sua própria família, transformando sua vida em um cerco silencioso. Isolada, exposta e sem controle, Alzira passa a sentir que o verdadeiro perigo não está mais do lado de fora… mas cada vez mais próximo — e impossível de impedir. Leia o Capítulo 5 completo Aqui
Veja também o capítulo bônus: O Eco do Abismo: Capítulo Bônus – O Calvo
Pela primeira vez em dias, o silêncio reinava na casa. Nenhuma notificação. Nenhum código. Nenhuma invasão.
Capítulo 6 – Verdades Expostas
Era domingo.
Alzira e seu filho, Adalberto Careca, acordaram mais tranquilos. O ar parecia leve, quase normal. Por um breve momento, os dois acreditaram que tudo tinha acabado.
— Tá vendo? — disse ela a si mesma, tentando se convencer. — Era só uma fase.
Mas não era.
Era o início do seu pesadelo… e da sua ruína.
Miguel apenas tinha acordado mais tarde.
Depois de um treino longo e exaustivo na academia no dia anterior, ele ainda dormia enquanto, do outro lado da cidade, a falsa sensação de paz se instalava.
Alzira decidiu que não queria cozinhar. Era domingo. Pegou o celular e abriu o iFood.
Erro.
Atualizou a tela.
Erro novamente.
Tentou acessar a conta.
Conta bloqueada.
Seu rosto mudou na hora.
— Não… não, não, não…
Tentou recuperar o acesso. Nada.
Sem escolha, foi para a cozinha. O simples fato de ter que cozinhar já a incomodava profundamente.
Mas o pior ainda estava por vir.
Minutos depois, o celular vibrou.
Depois de novo.
E mais uma vez.
Códigos.
Alertas.
Tentativas de acesso.
Invasões.
Tudo voltou.
Mais intenso.
Mais rápido.
Mais agressivo.
— Mamãe! — gritou Adalberto, seu “bebezinho”, já na casa dos 40 anos. — Tá acontecendo de novo!
Ela correu até ele, passando a mão pela careca do filho em um gesto automático.
Os dois celulares disparando notificações ao mesmo tempo.
E então veio o golpe mais pesado até ali.
A conta da PX Investimentos havia sido bloqueada.
O sangue de Alzira gelou.
— Não… isso não…
Agora não era mais incômodo.
Era prejuízo.
Era descontrole.
Era real.
O domingo acabou ali.
Quando Alzira achou que a humilhação pública já bastava, percebeu que aquilo era apenas a superfície.
Dias depois, recebeu um e-mail em seu Gmail.
No começo, pensou ser mais uma tentativa de invasão.
Mas, ao abrir, o sangue gelou.
Eram cópias.
Documentos.
Registros.
Comprovantes de irregularidades.
Tudo organizado.
Detalhado.
Preciso.
Informações que alguém havia reunido com extremo cuidado — e que, de alguma forma, tinham sido obtidas por Miguel.
Mas Alzira não tinha prova alguma contra ele.
O remetente era impossível de rastrear.
Totalmente criptografado.
Com máscara de encaminhamento.
Hospedado em um servidor do iCloud, nos Estados Unidos.
Um servidor que não devia nenhuma informação ao Brasil.
Ela leu.
Depois leu de novo.
E mais uma vez.
Havia questionamentos claros sobre irregularidades fiscais.
Movimentações antigas.
Declarações incompletas.
Dados incompatíveis.
Seu nome — e o de seus filhos — apareciam ligados a tudo aquilo.
Coisas que ela jamais imaginou que alguém fosse revisitar.
O coração acelerou.
— Isso é erro… só pode ser erro…
Mas no dia seguinte, surgiu outra informação.
Depois outra.
Um contador antigo foi procurado — um escritório medíocre, localizado próximo a uma base militar, nas redondezas de um supermercado chamado SEMAER.
Uma empresa ligada a outro filho entrou na conversa.
E aquele dinheiro que um dia “apenas passou” pela sua conta…
Voltou.
Como uma cobra saindo do mato seco.
Alzira sentiu a garganta fechar.
E não parou por aí.
Até irregularidades envolvendo CNPJs vieram à tona — MEIs que deveriam, no mínimo, ter natureza jurídica de ME.
Naquele momento, eles já sabiam:
A casa estava caindo.
Aos poucos.
Sem volta.
Começaram a surgir comentários ainda mais graves.
Histórias antigas.
Sussurros que agora tinham nome.
Entre eles, algo que ela jamais esperava que voltasse à tona.
Seu envolvimento indireto com pessoas de passado criminoso.
Entre essas histórias, o nome de uma mulher condenada por pedofilia: Ekira.
Uma condenação pesada.
Anos de prisão.
Mas Alzira a havia defendido.
Com firmeza.
Dizendo que ela era inocente.
O que Alzira não imaginava…
É que Miguel descobriria tudo.
Ekira tinha ligação com sua família.
Era parente de uma sobrinha que havia trabalhado em sua loja alguns anos atrás.
Agora, tudo se conectava.
E tudo voltava.
Vale Seco começou a falar.
E Vale Seco não perdoava.
Principalmente hipocrisia.
A mulher que passou a vida inteira posando de correta…
Agora era cercada por murmúrios sobre:
Receita Federal.
Ilegalidades.
Descumprimento de leis.
Favorecimentos obscuros.
Relações indefensáveis.
Os comerciantes da região central, que já não gostavam dela, passaram a falar abertamente.
Clientes antigos comentavam.
Pessoas que antes apenas toleravam sua presença… agora questionavam tudo.
Seu jeito arrogante.
Seu atendimento ruim.
Seu ar de superioridade.
Mas, no fundo, ela não era ninguém.
Não tinha nada.
E o pouco que tinha… vinha do marido, de quem nem gostava.
Estava ali por interesse.
Alzira tentou reagir.
Procurou advogado.
Ligou para conhecidos.
Tentou montar versões.
Ensaiou desculpas.
— Isso é perseguição… estão tentando me destruir…
Mas nem ela mesma acreditava mais.
Sua própria voz já não soava convincente.
Na quinta-feira, ao chegar em casa depois de um dia frustrante, algo estava errado.
A porta.
O silêncio.
O ar.
Entrou.
E parou.
Nada fazia sentido.
As cópias daquele e-mail…
Agora estavam ali.
Espalhadas.
Físicas.
Reais.
Coisas que ela acreditava que ninguém jamais veria novamente.
— Quem fez isso…?
Ela nunca teria resposta.
Dias depois, um telegrama chegou.
Sem remetente.
Anônimo.
Uma única frase:
“A senhora achou mesmo que ninguém ia descobrir?”
Alzira rasgou tudo.
Desesperada.
Caiu de joelhos.
E chorou.
Não de culpa.
Mas de raiva.
Porque ainda não conseguia admitir.
Naquela noite, foi ao banheiro.
Lavou o rosto.
Respirou fundo.
Ergueu os olhos.
E então viu.
Seu reflexo… falando antes dela.
— Falsa.
Alzira gritou.
O espelho trincou de cima a baixo.
No quarto, os sussurros na sua cabeça voltaram.
Mais fortes.
Mais claros.
Agora não eram ruídos.
Eram frases.
Mentiras que contou.
Nomes que destruiu.
Histórias que distorceu.
Segredos que manipulou.
Tudo voltando.
Linha por linha.
Palavra por palavra.
Ela tapou os ouvidos.
— PARA!
Mas não adiantava.
A voz continuava.
Vinha de fora.
Vinha de dentro.
Vinha de todos os lugares.
E, pela primeira vez…
não havia mais para onde fugir.
Em breve capitulo 7
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